O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

ENTRE O SILÊNCIO E O SUSPIRO



Era escuro.
Do lado de fora e do lado de dentro. Todos os dias.
Era silêncio. Do lado de fora e do lado de dentro. Todos os dias.
Era ausência. Do lado de fora e do lado de dentro. Todos os dias.
Era abandono. Do lado de fora e do lado de dentro. Todos os dias.
Era medo. Todos os dias.

Tentava encontrar a tal luz no fim do túnel, alguém para segurar em minhas mãos e me puxar desse abismo que mergulhei e do qual não conseguia voltar, por mais que tentasse. Tentativa após tentativa, desesperadamente. Como resultado apenas mais dor, lágrimas, mais medo e uma sensação de que não havia mais lugar. Sem espaço para mais uma pessoa fadada ao fracasso. A vida era pesada, muito pesada.

Desistir era a saída mais fácil, por mais que doesse. A cada novo dia (nunca novo) urgia o desejo de algo além desse lugar, tão doloroso e tão solitário. Ao olhar para os lados, nada existia, nem ninguém. Onde estavam todas as pessoas que um dia estiveram tão perto? Só me restou a agonia de gritar em um vazio que era capaz de me engolir inteiro, sem deixar rastros. E esse vazio estava começando a me parecer tão atrativo. Deixar com que ele pudesse me engolir e me levar para qualquer lugar, que não fosse aqui. Ah, me parecia a saída mais real.

Um dia — tão escuro quanto os outros — decidi me jogar nesse abismo, que há tanto tempo tentava me sugar completamente. Tudo o que me perseguia todos os dias permanecia igual. Silêncio, ausência, abandono, medo. Nada mudara, nem mudaria. Acordar era obrigação que tentava, a todo custo, fazer com que não existisse mais. O silêncio e a escuridão pareciam ser o meu maior conforto, mas sem dor, sem mais medo, sem mais ausências. Precisava de um fim, sem final feliz, como nos contos de fadas que deixei de acreditar a muito tempo. Isso nunca foi real pra mim.

Como um último suspiro em meio ao que sufocava, peguei o telefone e enviei uma mensagem à uma pessoa que parecia se importar comigo. Não poderia ir embora sem me despedir. Parecia injusto — não sei se com ela ou comigo. Entre lágrimas e mãos trêmulas, digitei. Reli uma, duas, três... Cinco vezes. Era exatamente o que precisava ser dito, sem muitos lamentos, apenas uma forma carinhosa de agradecer pelas vezes em que tentou me tirar do abismo, mas eu não conseguia, precisava de mais. Mensagem enviada. Era chegada a hora de ter atitude e pôr fim em tudo, finalmente.

Silêncio. Escuro. Medo. Mas, uma esperança que não era conhecida. Mensagem respondida. Uma, duas, três... Várias mensagens. Ligações ininterruptas. Ela estava preocupada. Ela queria quebrar meu silêncio, estar comigo, me ouvir. Ela ouvia meus silêncios? Ela estava disposta a acender a luz? Ela parecia sentir medo de que não mais me tivesse por perto. Afinal, porque alguém como ela, tão doce, se importaria comigo — uma pessoa amargurada pela vida?

Em meio a tantas perguntas, adormeço. Antes de dar um passo sequer, outro silêncio fez morada em meio peito e, em meio a lágrimas de esperança, adormeci. Horas depois, acordo e o celular não tinha mais bateria. Procurei o carregador naquela escuridão, e liguei. Mais mensagens dela, mais ligações que se perderam. Pedidos desesperados. Respirei fundo e liguei. Ela atendeu em silêncio e, com receio, o quebrei, mostrando que estava ali. Ouvi suas lágrimas junto a um suspiro de alívio. Tentei explicar o que havia acontecido e, entre lágrimas, agradeci.

Precisava agradecer a quem, no fim de tudo, era com quem eu me preocupava em me despedir e era quem se preocupava em dobro que eu não me despedisse e permanecesse aqui. Vivo. Descobri que havia mais que apenas silêncio, escuridão, medo, abandono e ausências. Havia mais que isso. Ainda não era capaz de dizer o quê, mas ela me prometeu estar comigo, junto, e descobrir.

Entendi, que no fim de tudo, só precisava de alguém que ouvisse meus silêncios, e os fizesse barulho — ao menos uma vez. E ela segurou em minhas mãos. O abismo ainda estava ali, ainda me sentia caindo, mas agora alguém me segurava.


MAGDA ALBUQUERQUE.
Magda Albuquerque. 26 anos. Prolixa. Psicóloga. Mistura realidade e fantasia em um encontro com a sua criatividade. Sempre em busca de tornar os dias mais leves com uma palavra ou outra, tentando organizar o próprio mundo. Escreve para organizar o próprio mundo, com a missão de colorir a vida - a sua e de todos.

2 comentários:

  1. Que texto mais lindo Magda!! Super intenso, mas amei! <3

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    1. Que bom que gostou, Marina. Essa intensidade que bate no peito de algum jeito conseguiu se mostrar nestas linhas. Que bom poder compartilhar com você(s).

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