O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

E NÃO É QUE O JOGO VIROU?



O seu sorriso não embaraça mais a minha razão. Posso esbarrar com você por aí que nada se transforma aqui dentro. Nada se desequilibra. É como se eu estivesse me imunizado a você nos últimos desencontros.

Talvez tenha sido naquela noite de sábado, quando a música alta ficou mais divertida que os meus dedos entrelaçados no seu cabelo; ou naquela manhã cinza de inverno em que você me deu bolo por conta do sono acrescido de um soneca no despertador. Ou talvez tenha sido por conta das mensagens que você leu e esqueceu de responder. Quer dizer, você vivia me deixando de escape, como se eu fosse uma saída certeira caso o plano principal furasse na última hora.

E parece que o jogo virou, né? Não me lembro de ter escrito qualquer bilhete que fosse pra você nos últimos dias. Também não atendi suas habituais chamadas da madrugada. E aposto que pensou que era só uma maneira de chamar sua atenção. Notei isso quando minha caixa de e-mails começou a se abarrotar com mensagens suas. Logo você, que detesta escrever mais de cinco linhas, escrevendo mini livros para saber o porquê do meu silêncio. Devo confessar que achei apelativo demais o excesso de emoticons que você usou. Sério, não precisava disso tudo não.

Eu nem te culpo por acreditar que eu fosse estar aqui quando tudo ficasse monótono demais para você. Eu sempre estive ao seu alcance. Duas palavras digitadas e eu já estava toda derretida em mensagens desconexas, prontas para te arrancarem sorrisos e acalmarem os ânimos. Eu era a dose certa de amor que te aquecia e depois te fazia sumir por meses a fio. Eu nunca fui prioridade e o mais dolorido é que eu sempre soube. E admito: não pensei que o jogo fosse virar. Quer dizer, no começo eu devo ter me alimentado com falsas esperanças e coisa e tal, mas depois que decidi apagar você aos poucos, tudo foi se encaixando e, de fato, passei a pensar menos em tudo que poderíamos ter vivido juntos e me concentrei em viver por mim tudo que poderia ter feito antes de você aparecer bagunçando tudo. Eu meio que recuperei o tempo perdido e, por consequência, te deletei por completo da carência.

E parece que o jogo virou. Seu olhar não me desconcerta mais, as frases bonitas não me convencem e suas piadas sem graça literalmente não me forçam a sorrir. Já não me preocupo com seus sumiços, mas noto suas tentativas frustradas de me chamar atenção com o excesso de curtidas em fotos velhas e mensagens clichês do tipo: “Tá tudo bem? Você não me escreveu hoje.” E você tem razão, não te escrevi hoje, não vou escrever amanhã e isso não quer dizer que estou aqui testando sua paciência ou te provando que depois que eu despertasse pra vida você finalmente me enxergaria e dentro disso construiríamos o nosso faz de conta feliz. Ao contrário.

Estou dizendo, em silêncio preenchido por ecos, que estou bem, que estou seguindo seus conselhos e estou deixando rolar. E não me culpe por a vida me encaminhar pra longe de você, o jogo virou e eu acabei descobrindo que você nunca me coube. Ironia ou não, a vida se ajeitou melhor com você daí e eu daqui.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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