O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 6 de setembro de 2016

CUIDADO EXCESSIVO TAMBÉM PODE SER ABUSO.


Fazia um ano que eu estava em tratamento contra o pânico. Quer dizer, eu estava aprendendo a me estabelecer e havíamos chegado na parte em que tentávamos a qualquer custo descobrir o que ainda desencadeava crises monstruosas, de medo súbito e absoluto, que sempre terminavam comigo numa sala de emergência, com o coração acelerado e a pressão alterada. Chegamos a conclusão de que eu “poderia estar sendo pressionada” pela rotina que eu levava. E isso, confesso, me deixou ainda mais apreensiva.

Eu levava uma vida comum. Saía cedo para trabalhar, estudava a noite, tinha um namorado bacana, minha família era estruturada. Eu podia sair com as minhas amigas, viajava vez em quando e fazia programas normais aos finais de semana. Vivia no teatro e explorando restaurantes novos na cidade. Eu era normal — ao menos era o que eu pensava. Até que na última sexta-feira de abril a psicóloga me deu o seu diagnostico:

— Chegou a hora de avaliar o seu relacionamento. E estou falando sério! Há semanas te vejo contar que está aborrecida por conta das cobranças que ele deposita em seus ombros. Seja pelas roupas que veste ou pelo que escolhe comer. E, vamos combinar, se fosse só preocupação com a sua saúde, ele não enfatizaria os quilos a mais que você ganhou nas últimas férias. Também não teria se preocupado em listar as celulites que estavam aparecendo, por conta do seu “vicío” de beber refrigerantes. Sejamos realistas! Ele abusa. Ele tenta te manipular. Lembra da festa que você mencionou ? Aquela em que ele quase desistiu de ir por conta do seu vestido? Vi as fotos e, realmente, não havia nada de vulgar. O decote estava acentuado e o vestido fazia jus ao corpo que você matinha. Não vi nada de extravagante, a não ser o comportamento doentio dele. Preciso mencionar também a mania que ele tem de acreditar que todos os homens se aproximam de você com interesse sexual. Quer dizer que seus amigos não valem nada ?

Nessa hora eu devo ter perdido o meu norte. Lembro de ouvir atentamente tudo que ela estava dizendo e de ficar ali, enumerando as vezes em que fui dormir chorando por conta das mais variadas crises de ciúme que ele deu nos últimos meses. Tudo era motivo para cara emburrada e nariz torcido. Não tinha um fim de semana que saímos em paz. Se alguém olhava ele já se aborrecia e estragava tudo. Era I N S U P O R T Á V E L conviver com a desconfiança e os surtos dele.

No começo eu me convencia de que era zelo. Preocupação. Muitas foram as vezes em que ele me fez “surpresa” indo me buscar no trabalho. Muitas outras foram as vezes em que ele me surpreendeu, indo me encontrar no intervalo da pós. Eu me convencia que era cuidado, demonstrações claras de quem se importa, mas não era. Várias amigas já haviam me falado que era estranho demais esse exagero em sempre querer saber aonde eu estaria e com quem. Se eu não atendesse o celular no segundo toque, já desencadeava uma nova discussão. Happy Hour com os colegas era motivo de pirraça. Sair mais tarde do trabalho já insinuava que eu estava de caso com alguém. Confesso, não era fácil driblar o ciúme e a marcação cerrada que ele fazia, mas de novo eu insistia que era cuidado.

Quem está dentro da relação não enxerga os surtos de forma negativa e nem supõe a pressão que determinadas atitudes acarretam. Cheguei ao ponto de não conseguir comer batata frita com Coca-Cola sem passar mal, duas eram o suficiente para eu me sentir enjoada. Ele tinha o olhar de reprovação ensaiado e o utilizava em conversas com os nossos amigos, familiares e quem quer que fosse. Sem perceber eu comecei a agir de acordo com suas regras e manuais. Eu me portava de acordo com suas expectativas e me preocupava — sempre — em estar a altura de suas exigências. Babaquice pura, mas explica isso para uma moça que sonhava acordada e estava dentro do que a sociedade vende como fórmula de felicidade plena.

Quando saí do consultório naquela tarde, o chamei para conversar.

Nosso relacionamento já estava mais para lá do que para cá, desagastado em promessas de mudanças que nunca se findavam, e eu expliquei pausadamente o que ela havia me dito. Que apesar das noites que ele passava segurando a minha mão, para acalmar minha ansiedade, ou das tantas outras que dividimos as madrugadas no hospital, enquanto eu era medicada com doses generosas de calmantes, ele contribuía para a minha cobrança aumentar.

Óbvio que ele não entendeu. Bateu o pé e disse que a psicóloga era cúmplice de alguma traição minha. Não chorei como pensei que fosse chorar. Não gritei. Não tinha mais forças. Eu só queria dormir em paz. Só queria me sentir protegida e aceita. Pedi que fosse embora e que não me procurasse por uns dias. Que me deixasse digerir tudo. Eu sentiria falta — e senti mesmo —, mas depois que ele foi embora em definitivo, muitas coisas começaram a aliviar e a dar certo.

Eu voltei a confiar em mim e pude, finalmente, me libertar de todos os rótulos. Eu lembrei que meu corpo ainda tinha curvas e parei de me esconder em roupas fechadas. Voltei a adotar o colorido e não me arrependo. Fui feliz ao lado dele e seria hipocrisia desmerecer os bons momentos, mas ele também me privou bastante. Me colocou numa redoma de vidro e, por algum tempo, me faz acreditar que no amor a gente tem a identidade violada pelo outro. E isso não é saudável.

Amor não aprisiona. Não rouba a liberdade. Pelo contrário, nos faz voar em boa companhia. E nos deixa o ninho feito na hora de repousar. Não sei se está dentro do que esperam.


MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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