O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

CÂMERA LENTA


Dois comprimidos de 100mg e uma caneca de chá de maracujá em cima da cabeceira. Dormir nunca foi tão difícil quanto agora. Tornou-se um ritual penoso. Na verdade, o receio de Diana não era dormir, e sim, o despertar. Era justamente acordar e ver que não foi um pesadelo, que tudo continuava exatamente igual ao dia anterior: uma bagunça aparentemente sem solução.

Toda manhã era um novo desafio. Diana não sentia dor, mas até gostaria. Viver era, nos últimos tempos, como uma anestesia interminável.

Ela não conseguia descrever o que estava passando. Sentou-se em frente ao computador, desativou todas as suas redes sociais. Uma por uma. Não queria mais ter obrigação de postar fotos sorrindo como se tudo estivesse bem. Não suportava sequer os elogios de "que sorriso lindo você tem". Como se não tivesse nunca o direito de salgá-lo com lágrimas. Também não queria mais postar várias fotos de pratos gourmet que inventava, sendo que na verdade não comia praticamente nada há duas semanas.

Sem Facebook, twitter, Instagram ou snapchat, começou a navegar por vários fóruns na internet pra tentar achar alguém que conseguisse entender aquele nó na garganta misturado com não-sei-o-que. Leu dois depoimentos, três, quatro, vinte. Até chegar ao depoimento de Fernanda. Uma mulher com sua mesma idade que tinha deixado um desabafo registrado no site dois dias antes de cometer suicídio. Diana se identificou com cada palavra e dentro de si lamentou não ter lido antes pra quem sabe, poder ajudar de alguma forma. Pra pelo menos dizer: "Ei, você não está sozinha! Eu sinto a mesma coisa".

No depoimento, Fernanda contava como a depressão a fazia enxergar o mundo. "Oi, meu nome é Fernanda e tenho 32 anos. Queria dizer mais sobre mim, mas isso é tudo que me lembro. Já tem alguns meses que vivo em câmera lenta. Aliás, sobrevivo. Eu não pertenço mais a esse mundo, apenas o assisto. E ele de tão ruim é como uma programação de TV aberta num domingo a tarde. É um filme repetido que eu não aguento mais. Tudo continua acontecendo. Eu vejo os carros passarem, as pessoas indo trabalhar, as crianças voltando da escola, os cachorros fazendo xixi no mesmo poste. Tudo continua igual, mas eu vejo em slow motion. O mundo não parou de girar, mas pra mim, quase. Os dias parecem ter o triplo de 24h. Sobreviver tem sido assim: assistir um programa ruim em câmera lenta e ainda sem comer pipoca. Não, essa não é uma carta despedida. Eu já me despedi há muito mais tempo".

Diana era o típico perfil de pessoa que ninguém — baseado em senso comum  iria imaginar que passaria por um quadro depressivo. Ela era de uma simpatia notável e vivia com um sorriso enorme bordado no rosto. Tinha gargalhada fácil, saía bastante, ativa nas redes sociais e vivia rodeada de amigos. Mas se engana quem pensa que a depressão é exclusividade de pessoas que apresentam melancolia.

Diana estava há mais de 30 dias afastada do trabalho. Por ser servidora pública, tinha essa segurança ao menos de não perder o cargo. Apesar de odiar o que fazia, era o que garantia o sustento dela e dos pais que moravam no interior. Mas, podia ter certeza que os comentários no trabalho eram os menos sensíveis possíveis. Até porque muitos colegas já tinham apresentado atestado de psiquiatra apenas pra tirar umas férias pra viajar ou porque estavam sem saco mesmo pra cumprir expediente. Infelizmente isso acontece com mais frequência do que se imagina, e não ajuda nenhum pouco no reconhecimento da depressão como uma doença que precisa de tratamento.

Julgamentos? Tinha de sobra. "Ah, ela é estável financeiramente, tem um namorado gato. Como pode ter depressão?". E a pior, mais frequente e cruel afirmação de todas: "Isso é frescura". Existe até quem queira ajudar, mas ainda carrega um preconceito velado nos conselhos: "Se você se esforçar, vai sair dessa. Você consegue". Realmente ninguém entendia. Ou melhor, Fernanda entenderia, mas não estava mais ali pra ajudar.

Diana não conseguia dormir, então começou a escrever. "Fernanda, sei que você não pode mais me ler, mas estou escrevendo mesmo assim. Eu me chamo Diana e tenho a mesma idade que você. Eu também lembro pouco sobre mim, sei pouco quem eu realmente sou. Faz tempo que só vejo o mundo girar como uma roda gigante enferrujada, mas não saio do lugar. Queria mesmo que a vida fosse um filme pra eu poder rebobinar a fita (esse verbo ainda existe?) e ter lido seu depoimento a tempo. Parece mesmo que a vida não é justa, não é? Um abraço, cara desconhecida que me conhece tão bem".

Diana chorou. Há meses não sentia absolutamente nada. Nem fome, nem frio e muito menos emoções. Dessa vez a história de Fernanda a comoveu. Ela sentiu um aperto no peito. Já era quase duas da manhã, mas pegou o celular e discou.

 Alô? Victor?
 Amor? Aconteceu alguma coisa pra você me ligar de madrugada?
 Aconteceu, amor. Eu preciso falar sobre o que eu estou sentindo. Não posso mais fingir que está tudo bem.
 Mas você está tomando os remédios direitinho, não está?
 Estou. Mas não se trata disso. Preciso falar de depressão. Sem medo. Eu tenho depressão!
 Amor, mas é só uma fase. Vamos superar isso juntos, Di.
— Eu não preciso apenas de remédios. Também tenho que ser ouvida.
 Eu confesso que não sei mais como agir ou lidar com essa situação, Diana. Não quero dizer algo que possa te fazer mal. Vamos procurar um terapeuta amanhã?
 Vamos! Mas não desliga agora.
 Não vou. Vou cantar uma música feliz pra você antes que comece a ouvir Radiohead de novo, até você dormir.

Diana sorriu. S O R R I U! E quando Victor ouviu aquela semi gargalhada do outro lado da linha, não aguentou e começou a dedilhar Sidney Magal em seu violão:

— Ohhhh eu te amo! Ohhh eu te amo, meu amor. Ohhh eu te amo. O meu sangue ferve por você.

Os dois gargalharam. E ela até sentiu a câmera lenta do mundo acelerar junto com o seu coração.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

7 comentários:

  1. Que texto mais maravilhoso Su! Confesso que terminei sorrindo junto com a Diana <3

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  2. Ahhh Mari! Que bom saber que o texto te fez sorrir. Queria muito que esse fosse o final pras pessoas que passam por momentos difíceis. ♥

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  3. Respostas
    1. Obrigada por me ler, Diego! Fico feliz que gostou :)

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  4. Que texto lindo, leve. Conseguiu transformar algo doloroso em algo leve, e que nos fez sorrir. Lindo!

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  5. Magda, muito obrigada pela leitura <3 Que ótimo saber que consegui passar essa leveza apesar dos pesares.

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