O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AMOR PRETO E BRANCO



Teodora prendeu os cabelos esbranquiçados — que tanto se orgulhava — em sua presilha folheada a ouro. Eles estavam longos, abaixo dos ombros, como Joaquim gostava. Ele dizia que amava sentir o cheirinho de jabuticaba que ficava na ponta dos fios após a hidratação. Teo parou alguns segundos em frente ao espelho e ficou se admirando. Era assim que ele a chamava carinhosamente. Bateu saudades. Sim, no plural.

Hoje era o seu aniversário de setenta e cinco anos. E o que não faltava em seu coração eram lembranças. Teo sempre pediu a Deus para que se chegasse na velhice, Ele proporcionasse à ela a graça de estar lúcida. E assim aconteceu. Teo sentia muitas dores pelo corpo devido a artrose e tomava agulhadas de glicose todos os dias por causa da diabetes, mas a sua mente? Essa continuava intacta.

O que era bênção, às vezes também fazia o coração de Teodora doer e ficar tão apertadinho a ponto de não caber mais uma agulha sequer. Aliás, elas eram boas companhias pra Teo que amava costurar. Estava terminando de bordar uma toalha em ponto cruz para dar de presente para a neta mais nova que iria se casar. Enquanto enfeitava a toalha lilás com o nome dos noivos e um ramo de flores, sua mente deu um reboliço e ficou envolta em memórias. De repente voltou-se ao dia do seu casamento, e os detalhes eram tão vivos, como se ela estivesse revivendo-os.

Quando casou-se, seu vestido era simples. Ela mesma o havia feito com a ajuda de sua irmã mais velha, que considerava como mãe. Ao todo eram uma família de oito irmãs e Teo tinha sido a última a se casar, quando completou dezessete anos. Sim, naquela época essa era a idade que as meninas "ficavam pra titia". Mas Teo orgulha-se de dizer que se casou por amor. Ao contrário da maioria de suas irmãs e tantas outras mulheres da década de 40. Teodora amava Joaquim e quando o viu a primeira vez, sabia que seria com ele que passaria todos os seus dias. Dito e feito. Tanto é que em praticamente todas as suas lembranças, Joaquim estava presente.

Sentou-se ao lado do amado e acariciou sua pele já enrugada pelo tempo.
— Meu amor, sou eu. A Teo. Sua Teo.

Eu gostaria de continuar esse diálogo, mas Joaquim nem sequer falava mais. Como não conseguia responder usando as palavras, apenas sorriu. Os olhos estavam marejados e transbordavam o sentimento mais nobre e bonito de todos: o amor. O Alzheimer tinha levado dele toda a sua lucidez, o fez esquecer como andar, mas não foi capaz de apagar esse amor verdadeiro. Ah, o amor! Esse ultrapassa o tempo e brinca com a nossa memória. Desconfio que o amor não foi mesmo feito para os lúcidos. Ele é a loucura mais bonita que existe.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

2 comentários:

  1. Que texto mais lindo! Leve e lindo. E pensar em um amor assim faz os olhos marejarem. Acredito nesse amor que você tão bem narrou nessas linhas tão inteiramente verdadeiras.
    Obrigada por tanta sensibilidade.

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    1. Eu que agradeço pela sua sensibilidade e percepção ao me ler <3

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