O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SETE SAUDADES



Sete de fevereiro de 1987. Foi essa a data fixada no envelope — já amarelado pelo tempo —  que Mariana encontrou no fundo da gaveta da estante da sala. Não tinha remetente, nem destinatário sequer. Apenas a data, gravada com uma letra bonita e bem redondinha, com dia e mês escritos por extenso.

Mariana desde menina sempre foi muito curiosa. Vivia ouvindo da mãe pra não se meter onde não era chamada. Mas não tinha como. Mari — como prefere que se refiram a ela — sempre dava um jeitinho de saber o porquê das coisas. E não satisfeita, queria mais. A curiosidade fez dela a primeira da turma no colégio. Sempre tirava as melhores notas sem esforço algum, porque pra ela estudar era uma diversão.

De todas as matérias, a sua preferida era História. Ela achava o máximo saber cada detalhe sobre as guerras, sobre escravidão e até feudalismo. Ficava muito nítido pra Mari o quanto que tudo isso que aconteceu no passado influenciava diretamente nos acontecimentos atuais. E isso a fazia ler mais e mais. Incansavelmente. Ela era daquelas que sempre iam além. Perguntava bastante, interrompia a aula várias vezes se fosse necessário e pesquisava muito na internet.

Mari olhou demoradamente o envelope. Voltou-se ao detalhe de ali não ter remetente ou destinatário e ficou muito intrigada. Mas o mais interessante foi a postura dela em relação àquela carta. Curiosa como é, em qualquer outra situação ela já teria violado a prática de privacidade e aberto o envelope sem nem pensar duas vezes. Mas dessa vez não. Mariana se conteve de uma maneira espantosa até. Passou minutos fitando aquele envelope, fixamente, e ponderando sobre abri-lo. Resolveu levá-lo ainda fechado consigo para o quarto. Colocou na cabeceira da cama, em cima do seu livro preferido, "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera.

Mari nem conseguia dormir. Era como se a carta estivesse encarando-a. Diante da insônia, ela não resistiu. Pegou o envelope e juntou ao peito. Respirou fundo e então tirou o selo que ainda havia. Era um adesivo dourado meio desbotado devido ao tempo e já sem cola. Mari puxou o conteúdo da carta devagarinho e desfez a dobra da folha com cuidado. Era uma carta de amor assinada com um M maíusculo seguido de um ponto final e só. Mari deduziu que aquela inicial era de Marcos, um ex namorado de sua mãe. Aliás, "um ex" não. "O ex". Já que antes de se casar com o pai de Mari, Fátima só havia tido este único namorado que mencionava vez ou outra, quando ia dar um conselho amoroso para Mari ou simplesmente em conversas informais. Por esse fator, a assinatura não lhe era totalmente estranha — claro que foi justamente a assinatura que Mari foi olhar primeiro, antes mesmo do conteúdo da carta. Depois de matar a primeira curiosidade, Mari voltou os olhos para as primeiras linhas e começou a ler cuidadosamente.

"Fátima, sei que dia sete de fevereiro de 1987 será um dia inesquecível pra você. É o dia do seu casamento, e infelizmente não é comigo. Aliás, infelizmente não. Porque quando amamos alguém desejamos que ela seja feliz independente de ser ou não ao nosso lado. Mas desculpe, Fátima. Meu amor por ti ainda tem aquele frescor da adolescência e não amadureceu a esse ponto. Eu queria mesmo era ser o pai dos seus filhos e ouvir o seu "sim" no altar pra mim. Seria muito egoísta da minha parte pedir pra você voltar. Você está grávida de uma menina linda (espero que ela tenha a cor de mel dos seus olhos) e terá uma vida estável com seu futuro marido. Eu continuo aqui estudando pro vestibular de medicina e sonhando. Não seria justo te pedir pra voltar. Então só vim dizer o tanto que sinto saudades. Sinto saudade de absolutamente tudo, mas vou enumerar apenas sete saudades. Por que sete? Porque dizem que é o número da perfeição e é isto que que eu enxergo no teu sorriso.

1- Sinto falta do seu riso tímido na hora de pedir algum favor.
2- Sinto falta do seu abraço apertado na hora da despedida.
3- sinto falta dos seus olhos distraídos me olhando durante a aula.
4- sinto falta de você me beijando pra agradecer quando eu trazia chocolate.
5- sinto saudade do seu cafuné na barba e carinho nas costas.
6- sinto falta do seu cheiro adocicado.
7- sinto falta de achar um resto de batom seu na minha camiseta.

Desculpe, Fátima. Não posso e não tenho o direito de querer roubar o mínimo da sua atenção nesse dia que provavelmente será o mais importante da sua vida, mas eu precisava dizer-te tudo isso. E até quando escrevo lembro de ti. Porque foi você que me incentivou a fazer um curso de caligrafia e espero que sinta orgulho da minha letra redondinha. Você sempre dizia 'Você será um ótimo médico, mas, por favor, enquanto não é ainda, vamos melhorar essa letra'. Eu sorria. E hoje sinto falta até de você pegando no meu pé com coisas bobas. Ah... deixa eu encerrar por aqui. Agora põe aquele batom vermelho que você adora e seja muito feliz.

Com todo amor do mundo,

Att.

M."

Mari suspirou forte ao terminar de ler. Ainda ficou alguns minutos em choque e só depois conseguiu pensar no que havia lido. O que estava ali era um pouco de sua história também — assim como nos livros que estudava na escola de tantos anos atrás tinham relação com a realidade do século atual. Pensou em várias coisas que podia perguntar à sua mãe sobre a carta, mas resolveu calar-se. As linhas já diziam muito por si só. Pela primeira vez, Mari não sentiu necessidade de pesquisar cada detalhe e preferiu apenas imaginar, guardar aquele sorriso bobo que se abriu ao ler as descrições doces de Marcos sobre Fátima. Beijou o envelope, guardou a carta e a colocou novamente na gaveta, no mesmo lugar. De vez em quando é isso que precisamos fazer com nossas saudades: tirar a poeira.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

15 comentários:

  1. Eu ainda estou tentando não chorar quando releio esse conto. Tá lindo de viver e eu tô encantada com a sua forma de escrever. MESMO!!!

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    1. Gi, que felicidade ler isso de ti. Sou sua leitora assídua💝 obrigada

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  2. Nossa!
    Impossível não soltar um suspiro ao final da leitura. Um suspiro pelas tantas saudades guardadas no peito, com ou sem poeira.

    Parabéns por esse texto lindo!

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    1. Ah, que linda! Se você soltou um suspiro e junto com eles algumas lembranças, consegui meu objetivo💝😘💐 obrigada pela leitura!

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  3. Que doce, que encanto, que leveza, que incrível! Eu terminei o texto com um riso bobo e uma vontade de quero mais.

    Lindo lindo lindo ♥

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    1. Mafê, obrigada pela leitura. Sou sua fã. Pra mim é um privilégio ter você como minha leitora também. Escrevi esse texto com o coração💝 😘🌻

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  4. E impressionante como a gente se comove com uma historia contada em um texto, como nos prendemos ao personagem e criamos uma empatia tão rápido, talvez seja os detalhes tão bem descritos que nós da forma na imaginação de cada fato que se passa com os personagens. Sem contar que sempre fica aquele gostinho de querer uma continuação, saber o que houve depois... Parabéns pelo texto, muito emocionante.

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    1. Fico muito feliz de criar essa conexão entre leitores e personages, meu amor. ♥

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  5. Fico muito feliz de criar essa empatia e conexão entre leitores e personagens. Quando escrevo os personagens, eles ganham vida. São vida pra minha voz. Obrigada, de coração, meu amot

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  6. Fico muito feliz de criar essa empatia e conexão entre leitores e personagens. Quando escrevo os personagens, eles ganham vida. São vida pra minha voz. Obrigada, de coração, meu amot

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  7. Que delícia!!! De uma leveza deliciosa e contagiante. A vontade que dá é de virar alguma página pra continuar. Suspirei pensando em todas as saudades que tenho. Sucesso e luz!♡

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    1. Ana, você é luz e inspiração. Obrigada pela leitura . Não tem preço.♥♥♥

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  8. Que delícia!!! De uma leveza deliciosa e contagiante. A vontade que dá é de virar alguma página pra continuar. Suspirei pensando em todas as saudades que tenho. Sucesso e luz!♡

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  9. Que texto mais lindo. Impossível não suspirar e não "tirar a poeira" de algumas saudades. Tocou o coração. Beijo

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    1. Ahhh que coisa linda de se ler. Obrigada de coração pela companhia aqui na leitura. Super beijo!

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