O amor é brega. E quem não é?

domingo, 14 de agosto de 2016

O MEU PAI ESCOLHEU SER PAI



Ainda bem que temos a memória para eternizar momentos bonitos. Hoje eu volto alguns anos e me recordo de pequenos/grandes momentos em que tive a graça de viver ao lado do meu pai. Mas, antes de qualquer coisa, quero apresentar a vocês o grande homem que tive a benção de ser agraciada como filha. Meu pai é de uma família humilde criada no interior do Maranhão. As minhas origens, as nossas origens, ainda estão bem evidentes apesar de morarmos há quase 25 anos em Brasília. Meu pai foi um guri que matava aula para caçar passarinhos, ele mesmo fazia a sua baladeira e se embrenhava nos matagais e roçados da cidade interiorana de Cocalinho. Meu pai foi um rapaz que aos 14 anos saiu de casa, porque preferiu traçar sua própria estrada, pois não compactuava das mesmas ideologias de meu avó. 

Meu pai foi um adolescente que se tornou homem cedo demais. Um rapaz que se aventurou pelos garimpos do Nordeste e quase morreu de malária. Um homem que deixou a sua casa, suas filhas, para trabalhar em outro estado e dar uma vida digna a elas. Ele tomou para si o ofício de carpinteiro, o mesmo de Jesus, até se encontrar em uma outra profissão. O meu pai  que também tem o nome de Jesus  hoje é gesseiro. Alguns dizem peão de obra. Eu digo: meu maior orgulho. 

Sempre que olho para a história do meu pai vejo um menino que não teve tantas condições. Que optou por trabalhar ao invés de estudar, que apesar de ter tido uma breve infância ainda se alegra e nos conta de pequenos feitos e coisas que abraçam o meu coração. A história dele é bonita. Apesar dos pesares. Apesar das dores. E eu vejo a beleza de sua infância em seus olhos, quando lacrimejam, ao lembrar de como era quebrar, por exemplo, castanha com seus irmãos ou buscar água na cacimba. Talvez você olhe para mim e diga: que beleza você vê em roçar um terreno e plantar arroz? Então, eu lhe respondo: a alegria de viver, de estar junto de quem amamos, é que torna tudo bonito.

O meu pai é um trabalhador que acordava às 5h todos os dias e pegava ônibus lotado para poder pagar aluguel, nos manter alimentados, nos dar uma vida melhor. A vida que ele não pôde ter. Meu pai é aquele cara que trazia todos os dias cocada e doce de abóbora para nós, é aquele que nunca soube dizer muito bem: "eu te amo". Não porque ele não amava, mas porque ele não soube o que era amor. Não dessa forma. Todas as vezes que vejo o meu pai chorando em um programa de auditório, se emocionando com a conquista dos outros, eu percebo o quão agraciada sou por tê-lo como pai. 

O meus olhos se enchem todas as vezes que falo dele. E, eu me orgulho de parecer tanto. De ser a impressão dele, de ter traços tão fortes e a personalidade tão semelhante. O meu pai é daqueles que você pode confiar de olhos fechados, que se você precisa de uma mão ele lhe dá o braço, daqueles que acolhe como filho, que abraça sem se importar de onde veio ou como veio. Ele é a razão pela qual escrevo, por quem sou hoje. Meu pai é meu estudo, hoje sou formada graças a ele. Meu pai é meu caráter, hoje tenho uma visão do mundo graças a ele. Meu pai é meu porto seguro, hoje sei que onde estiver/como estiver sempre poderei voltar ao seu colo. Meu pai é meu super herói, pois hoje sei que a maior aventura e desafio que ele encarou foi ser pai. O meu pai escolheu ser pai. E soube/sabe desempenhar muito bem esse papel.

Meu pai é benção, é presente e um dos amores da minha vida.
Obrigada pelo sim de tua paternidade. Obrigada pelo sim de nossa família.



PÂMELA MARQUES.
Pâmela Marques é escritora, musicista e apaixonada. Tem alguns títulos acadêmicos, mas o que realmente importa é que ela vive para arte. É fã alucinada de Roxette, amante de Caio Fernando Abreu e admiradora de Tolkien.

2 comentários:

  1. que texto cheio de sentimento, Pâm. ♥ seu pai deve ser um serumaninho incrível!!!

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  2. Que lindo! Não me aguento com textos sobre pai. O meu é infinitamente incrível pra mim e fico feliz que existam tantos incríveis por aí. Graças a Deus!

    BEijão.

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