O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

EU SOU GIGANTE DEMAIS PRA VOCÊ

amor-próprio

Eu esperei você me telefonar, andei grudada com o celular por todo o canto, recusei ligações com receio de você desistir ao ligar e perceber que eu já estava ocupada com algo. Torci todos os dias para ouvir o interfone tocar e ser o porteio anunciando a sua chegada. Eu vi o sol nascer no mar, sem seu ombro para apoiar a cabeça mais vezes do que desejei — e te imaginei comigo em cada uma delas.

Você nunca veio, não mudou de ideia e nem quis me ouvir batendo o pé pedindo para ficar. Não ligou, não combinou com o porteiro para entrar sem anunciar sua chegada, só para me surpreender. A tela do meu celular nunca mais viu seu nome e, ainda assim, tem tanto de você por aqui. Você foi embora e deixou sua marca em todos os cômodos.

Por um bom tempo a minha vida ficou estagnada e tudo permaneceu do jeito que você deixou, eu torcia para você voltar e encontrar as coisas nos mesmos lugares. Mas chega uma hora que a gente cansa, sabe? Essa espera maltrata e a saudade bate toda noite, só que eu estava farta de apanhar por uma ausência de alguém que nunca teve a pretensão de ficar. Aí eu transbordei, meu bem. Chorei rios de lágrimas, com a péssima ideia de que a culpa era minha, mas no fundo eu sabia que tinha te dado todos os motivos para ficar e você não quis.

Até que acordei um dia, com um clique, em uma madrugada qualquer, percebi que todo meu tempo estava sendo desperdiçado por alguém que jamais soube ver o melhor de mim. Eu comecei a entender então, que toda essa minha espera — antes inútil — tinha servido de algo, porque ela me mostrou que uma falta de resposta é a melhor resposta que se pode esperar de alguém.

Eu precisei ter meu coração quebrado para aprender a juntar os pedaços sozinha e entender que é melhor aceitar a minha própria companhia do que me diminuir para caber em qualquer canto e, meu amor, eu sou gigante demais para você.

MARI GUIMARÃES 
22 invernos, escritora do livro "E se fosse verdade?". Mineira que vive no Espírito Santo, estudante de Oceanografia, apaixonada por café, livros e escrita desde quando aprendeu a identificar as primeiras letras. Encontrou lá toda a coragem que não tem pra dizer aquilo que vem à cabeça. Aquele eterno e irritante clichê que isa as palavras como seu refúgio. Não fala pelos cotovelos, mas escreve como um furacão.

6 comentários:

  1. Adorei o parágrafo final. Lição linda de amor próprio♥ Parabéns pelo texto, Mari.

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    1. Obrigada! <3 Muito bom ler isso, faz um bem danado.

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  2. Mari, que texto mais incrivelmente lindo! Eu já tive que me encolhei demais para caber em corações pequenos também, e conseguir se libertar é algo sensacional ♥ me vi tanto nessas tuas linhas, que cê não faz ideia!

    Beijo

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    1. A sensação de perceber que a gente não precisa se diminuir para caber na vida dos outros é maravilhosa. E se libertar disso é melhor ainda!
      <3

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  3. O final foi de fato um final, fechando com chave de ouro.
    Texto maravilhoso!

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    1. Obrigada! Dar a volta por cima e saber o seu tamanho é digno de aplausos. <3

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