O amor é brega. E quem não é?

domingo, 14 de agosto de 2016

EU NÃO TIVE UM PAI.



O dia de hoje pede que a gente comemore ao lado de quem, supostamente, cooperou para nos trazer ao mundo, mas essa nunca foi a minha realidade e nunca será. Não me atrevo a opinar se é feliz ou infelizmente. Não me cabe reclamar, só agradecer. A grandiosidade da palavra pai, na minha vida, é tão imensa que não pude torná-la exclusiva. Ao longo dos anos que carrego eu tive o prazer, a alegria e a gratidão de conhecer muitos deles.

Ganhei meu primeiro pai quando ainda nem conhecia o ar do lado de fora da minha quentinha e confortável barriga. Eu tinha pouquíssimos meses quando fui "adotada" pelo meu bisavô. Eu ainda não sabia como eram seus olhos de jabuticaba, mas ele profetizava que eu os herdaria — e assim o fiz. Ele, ao lado da minha mãe, foi o guardião que me protegeu da brutalidade humana que já tentava me impedir de ser. Não me alegro em dizer que muitas delas vieram de quem carrega meu próprio sangue, mas ele estava lá pra garantir que eu herdaria sua sensibilidade também. Quando eu brincava de chutar as paredes, bastava que ele dissesse meu nome e eu voltava a ser calmaria.

Até que eu nasci. E nada mudou. Pela primeira vez ele se viu trocando fraldas, esquentando leite e colhendo flores pelo jardim da minha bisavó — enquanto ela reclamava que ainda iríamos matar todas as plantas dela — só pra colorir o meu berço. Foram infinitas as noites em que tive meu sono embalado pelo som da sua voz, aquecida pelos seus braços que nunca haviam segurado bem mais precioso. "Vovô Menel", eu dizia. "Minha bisneta", era o que saía de sua boca com orgulho, durante os anos em que conseguiu permanecer entre nós. Ele foi o meu primeiro e eterno pai. O meu primeiro herói.

O segundo, o terceiro e muitos outros eu conheci quando ainda não sabia como era guardar lembranças, mas soube que eles foram fundamentais para que eu permanecesse em segurança. Um deles eu ainda tenho o prazer de chamar de "paidrinho", ainda que nunca tenhamos dividido nenhum banco de igreja. Foi com um abraço que ele me batizou e é com amor que ele ainda me educa, me ensina sobre os valores da vida e é meu maior exemplo de honestidade e amor. Com ele eu aprendi que distância é só uma bobagem inventada pra desafiar a saudade. E nós a destruímos uma vez por ano, quando dividimos risadas, feijão fresco e um sofá. Ele foi e ainda é um dos pais que eu escolhi pra vida, sem arrependimento algum.

O seguinte apareceu do nada, numa pousada do centro de Olinda, entre uma cerveja e um violão. Foi por ele que a minha mãe se apaixonou e com ele ela dividiu os vinte anos seguintes. Aos três anos eu lhe perguntei "você quer ser o meu pai?" e, para a minha alegria, ele me disse "sim". Ele me ensinou a andar de bicicleta, a nadar, brincar com bola de gude, a comer macarrão sem morder, arrotar como ele — obrigada por isso, sério — e muitas outras coisas. São inúmeras as nossas diferenças, nossas desavenças e nossos erros, mas quem é perfeito? Devo à ele toda a estrutura que tive, o gosto pela música brasileira e muito mais. Não dividimos carga genética, mas somos mais parecidos do que admitimos.

Depois dele tive muitos outros. Pais de amigas, professores, sogros e amigos da família que minha mãe custou para construir. Listá-los seria uma tarefa longa demais para caber nesta crônica, mas minha gratidão permanece espalhada por todo o meu peito, registrada em inúmeras fotografias que guardo na memória e me causam gargalhadas e lágrimas, enquanto escrevo estas linhas felizes.

O último pai que escolhi nunca me abraçou, nunca me disse um "eu te amo", nem me conheceu quando criança. Ele nunca me viu andando de bicicleta nem dividiu o mesmo teto que eu. Nunca sentamos para conversar sobre a vida — na verdade, nunca conversamos sobre nada — e, pra falar a real, eu o escolhi por tabela. Ele carrega o nome e o sangue daquela que eu escolhi para dividir a vida comigo e, do jeito dele, sei que cuida de nós da melhor forma que pode e consegue. Ele me ensinou que ser pai não tem a ver com dizer amém para todas as escolhas dos filhos, mas reconhecer que se é para o bem deles, passar por cima da discórdia é válido. Com ele eu divido a cerveja, o controle da TV, as sacolas do mercado e compartilho do temperamento um tanto quanto explosivo. Ele trouxe ao mundo a pessoa que hoje chamo de família e, por isso, ele já tem minha gratidão e meu amor. Ainda que nunca tenha lhe dito isso.

Eu não sei de quem herdei os meus cabelos, tão diferentes dos da minha mãe. Eu não sei se ele tem a risada parecida com a minha, ou se nosso jeito de andar é igual. Talvez eu nunca saiba. Ainda assim sou grata à ele por nunca ter se dado ao trabalho de conhecer quem ajudou a colocar no mundo, porque isso me deu a chance e o prazer de ter não só um, mas vários exemplos de amor incondicional, cuidado, carinho e amor.

Eu não tive um pai. Eu tenho vários.

Foto: arquivo pessoal

GISELLE F..
É uma pernambucana por nascimento e paulista por consequência da vida. Escritora, blogueira e brinca de ser poeta de vez em quando. É a típica mulher-eternamente-menina que, apesar de ter cicatrizes profundas, nunca deixou que seu medo lhe impedisse de se aventurar mais uma vez. Quando sente demais, transborda em palavras.

20 comentários:

  1. Perfeito!! História, Linda e emocionante.

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  2. Perfeito!! História, Linda e emocionante.

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  3. Que lindo, Gi.
    Verdadeiramente lindo!

    Fiquei sem palavras, mas com um sentimento bom sobre a vida ao lhe ler. Acho que tudo o que você falou deixa uma lição de amor que vai além da nossa compreensão.
    Que lindo!

    Beijão.

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    1. Magda, querida. Muito obrigada pelo carinho com minhas palavras. Espero que seja mesmo uma lição espalhada por aí. <3

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  4. Que Lindeza de texto. Que sensibilidade. E que sorte, Gi. Menina de sorte.

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    1. E aí eu morro do coração, vendo que alguém que tanto amo ler está aqui elogiando meus escritos. Obrigada, Re. <3

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  5. Nem preciso falar nada neh Gih ... texto maravilhoso ...
    Saudades garota !!!

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    1. Gigante a minha surpresa ao saber que você me lê, nego. Obrigada pelo carinho e pelo elogio. Saudade docê. <3

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  6. Nossa que texto lindo Gi, graças a Deus por tanto amor que nunca lhe faltou. Amei seu texto.

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    1. Obrigada, Ca. *-* Sou feliz e grata por isso, sempre.

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  7. Deus em sua infinita misericórdia soube que seu coração seria tão imensa e que, dessa forma, necessitaria de muito amor para preenchê-lo. Eu vejo você e a tua história, tu já me dividiu ela tantas vezes, e só consigo sentir orgulho e gratidão por você me deixar participar disso. Eu lembrei das fotografias que vi na sua casa e tantos sorrisos desenhados. Você é, minha amiga, agraciada por isso. Não há quem não te ame. A tua essência é linda. O pai da Káh é o pai que a vida te reservou e que coisa linda foi e é esse encontro de vocês. Amo você e sou feliz por tê-la em minha vida.

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    1. E aí eu nem sei como responder isso... Perdi as palavras. Gratidão me define. <3

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  8. esses é daqueles textos: CARALHO!

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    1. Hahahaha Adoro palavrões nos elogios. <3

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