O amor é brega. E quem não é?

domingo, 14 de agosto de 2016

DEU POSITIVO.

 dia-dos-pais

Vinicius descobriu que ia ser pai aos 19. Já namorava Maria Fernanda desde os 17, quando concluíram o ensino médio e ingressaram juntos na universidade, pro mesmo curso: psicologia. Ter filhos até estava nos planos de Vinícius, mas não era o primeiro item da lista. Não mesmo! Antes disso ele queria fazer um mochilão na América do Sul, outro na Europa e quem sabe até escrever um livro.

Vinícius amava Mafê — só a chamava pelo nome completo quando estava bravo ou queria irritá-la propositalmente. Não tinha dúvidas de que ela seria uma ótima mãe. A sua preocupação era justamente como ser um bom pai. Até porque ele não sabia o que era isso. Não sabia sequer o que era ter um pai, quanto mais um bom.

Mafê e Vinícius eram de famílias diferentes, e, se for feita uma breve análise, representavam dois modelos de família bem comuns no Brasil . Ela era de uma família tipicamente tradicional. Teve pai, mas ele era ausente dentro da própria casa. A sociedade patriarcal o fazia se abster da criação das filhas. Quando Mafê ou a irmã mais velha faziam algo considerado errado, ele dizia pra esposa: "Olha aí o que SUAS filhas aprontaram". O dever dele de pai se limitava ao financeiro. Mafê raramente recebia algum carinho paterno. Já Vinícius era filho de "pãe" (nomenclatura formada a partir da junção pai + mãe). Não tinha o nome do pai na certidão de nascimento e nunca o viu nem em foto sequer.

Vinícius começou a pensar em tudo que sentia falta na figura paterna que não teve. E o engraçado era que só vinha o tempo inteiro a imagem de sua mãe Dona Jesuína na cabeça. Ela nunca deixou faltar nada pros filhos — além de Vinícius tinha outros dois meninos —, mas para isso, teve que viver uma vida de heroísmo, abrir mão de si e ainda ouvir uma série de julgamentos alheios. Dona Jesuína era muito inteligente, mas teve de parar os estudos no ensino médio, para trabalhar quase 12h por dia

Enquanto pensava em tudo isso, olhava fixamente para Mafê. Mesmo com a descoberta recente da gravidez, ela estava lá sentada e super concentrada nas apostilas para a semana de provas. Mafê tinha passado em primeiro lugar no vestibular. Era a menina mais inteligente e dedicada que Vinícius conhecera. E foi ali, vendo aquela cena, que ele fez a primeira promessa pra si. Apesar de não fazer ideia de como era ser pai, prometeu que jamais deixaria Mafê se sobrecarregar com a maternidade. E que não queria apenas ser um coadjuvante que merece aplausos toda vez que troca uma fralda. Vinícius queria participar de fato da criação do seu filho (a), mesmo sem saber os caminhos das pedras. Se nunca tinham contado e ensinado pra ele como era ser pai, ele podia criar a melhor maneira de fazê-lo.

Sem nem perceber, Vinícius se pegou sorrindo sozinho e imaginando o rosto do seu bebê. Nem sabia ainda se seria menino ou menina, mas pela primeira vez desde que teve a grande notícia, seu coração se encheu de paz ao invés de preocupação e questionamentos. Foi até a cozinha, preparou um suco de maracujá — o preferido de Mafê —  e levou na sala pra namorada. Beijou-a demoradamente nos lábios e acariciou sua barriga, ainda pequenina, de 6 semanas. Mafê se surpreendeu com o gesto e também sorriu. Foram minutos de silêncio deliciosos que revelavam a intimidade e cumplicidade do casal.

— Se for menina, vai se chamar Doralice. Significa dádiva nobre. O que acha, amor? —  Perguntou Mafê, quebrando o silêncio com sua voz branda.

— É lindo, amor! Mas e se for menino?

— Aí você escolhe.

— Gosto de Eduardo. É simples, mas bonito e forte.

— Forte está esse suco de maracujá, amor. Do jeito que eu amo. Você me conhece bem mesmo.

— Esse teu sorriso me tranquiliza tanto, amor. Realmente, ter um filho contigo é uma dádiva.

Mafê respondeu com um sorriso e os dois se beijaram novamente. Vinicius que já tinha descoberto que ia ser pai, agora estava aos poucos descobrindo que acima de toda e qualquer obrigação vem o amor. Ele amava Mafê. Não é obrigado a fazer um suco pra ela, mas faz porque simplesmente quer ver aquele sorriso. Paternidade deve ser quase a mesma coisa. Exige responsabilidade, mas antes de tudo precisa de amor. E esse já estava crescendo no coração de Vinícius. Agora quando alguém perguntava: "Você vai ser pai?" ele respondia de imediato: "eu já sou!"


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

6 comentários:

  1. Su, me derreti inteira aqui. Que cenário mais lindo esse que você montou. Vi tanto de tanta gente que conheço rabiscado nessas tuas linhas que coração ficou pequenininho. Conheço muitos Vinicius

    e amei ver meu nome num conto teu ♥

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  2. Teu nome lindo me deixou mais próximo da personagem. Sei que existem muitas Mafes e Vinícius por aí e eles são minha dose de esperança de uma geração melhor. Obrigada por ler ♥

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  3. Conheço uma pessoa assim, Su. A pessoa que venho escolhendo todos os dias para caminhar ao meu lado. E fiquei tão feliz em enxergar ele no seu texto, sabe? Parece até que você se inspirou nele. No fim eu tive que suspirar. Que texto extremamente, absurdamente, INCRÍVEL!

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  4. Conheço uma pessoa assim, Su. A pessoa que venho escolhendo todos os dias para caminhar ao meu lado. E fiquei tão feliz em enxergar ele no seu texto, sabe? Parece até que você se inspirou nele. No fim eu tive que suspirar. Que texto extremamente, absurdamente, INCRÍVEL!

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  5. Que lindo, Meeel! Fico feliz de ter despertado bons sentimentos e lembranças com essas palavras. Você é especial e tenho certeza que suas escolhas só te levarão a pessoas igualmente especiais também. ♥

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