O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

AMAR TAMBÉM É DIZER ADEUS

vitor-vilas-boas


– Onde foi que nos perdemos? Em qual momento da nossa caminhada nossos caminhos se desencontraram?

Foi exatamente ali. Naquele bendito lugar que nos conhecemos há alguns anos. Eu era recém-chegada em Fortaleza, vinda de São Paulo, fugindo daquela cidade fria e cinza e estudando para entrar no curso de Turismo. Meu primeiro emprego foi naquela cafeteria. Nada de extraordinário.

Eu era uma espécie de faz-tudo lá dentro. Limpava, arrumava, preparava uns expressos, servia as mesas, fechava a cara para uns babacas que faziam brincadeiras com meu sotaque paulista de interiorrrr… Daí, em uma dessas, o conheci. Ele era alguns anos mais velho que eu. Nem era bonito. Parecia o personagem Smilinguido daquela historinha em quadrinhos, só que de roupa e narigudo. Reconheceu meu sotaque assim que cheguei na mesa para atendê-lo.

– Ribeirão Preto, aposto! – Me disse sorrindo.

Errou por uns 20 km na distância, mas o sorriso daquele serumaninho me acertou em cheio o coração. Já tinha saído com uns carinhas antes. Uns beijinhos aqui, umas coisinhas sem compromisso ali, mas acho que aquele cosplay de nariz do Gerard Depardieu devia ter algum feitiço para me deixar tão encantada. Quase toda quinta-feira ele passava lá na cafeteria no mesmo horário e eu sempre ficava na expectativa de sua chegada. Ele tinha aulas de inglês há uma quadra dali, mas dia de terça tinha que correr para a faculdade senão perderia a primeira aula da noite (de vez em quando ele fazia isso só para me ver. Um fofo, gente!). Às quintas era somente o último horário, então dava tempo de um café e ainda me esperava bater o ponto para ir embora e me acompanhava até a parada de ônibus (eu já disse que ele é um fofo?).

Algumas semanas depois veio o primeiro beijo e, quando nos demos conta, já estávamos nos encaminhando para 1 ano de namoro! Foi a primeira vez que ele disse que me amava. Hoje em dia a pessoa beija num dia, pede em namoro no outro, no terceiro dia diz que ama e no sétimo termina. Minha versão desnutrida do Obelix levou um ano para dizer que me amava (tímido e fofo que dá vontade de morder)! Não que isso seja um fator mais ou menos importante para que um relacionamento dure, mas fomos amadurecendo o sentimento de uma forma mais calma, mais segura.

Daquele primeiro momento na cafeteria até o fatídico dia dessa pergunta, foram pouco mais de 11 anos. Passamos por muita coisa juntos. Histórias, viagens, brigas, conquistas, medos, alegrias, sustos (fiz até reza para a menstruação descer, nossinhora do desespero), separações, voltas… Nunca faltou companheirismo. Sempre buscamos respeitar o espaço um do outro, nossas liberdades e individualidades. Momentos de estarmos juntos e estarmos sós. Não éramos exatamente o casal perfeito, mas havia um sentimento muito forte que nos unia.

Só que, de uns tempos para cá, algo estava desalinhado. Não conseguíamos saber o que era. Claro que há um desgaste natural nas relações depois de um certo tempo, por isso a importância do reinventar-se dentro do relacionamento, mas, até mesmo as nossas tentativas de diálogo estavam se esvaziando. Aquele brilho que havia em nossos olhos, que trazia o aconchego ao peito ao fim de um dia puxado, agora estava opaco.

Era como se, mesmo que você mudasse todos os móveis da sala de lugar ou os trocasse por novos, você não conseguisse se sentir mais à vontade ali. O problema não era a decoração, mas a casa. É difícil ficar num lugar onde o sentimento de pertencimento já não existe mais. A gente tenta, insiste, se prende ao comodismo que é estar ali, ao costume dos cheiros, marcas e rachaduras espalhados pela casa. Mas, e no fundo? Qual a nossa verdadeira vontade?

Foi amor. Aliás, foi não, ainda é. E, provavelmente, sempre será amor. Mas não como era antes. Ainda vou achar essa versão tupiniquim magra do Depardieu o cara mais fofo e do sorriso mais lindo que já conheci. Só que, realmente, eu não sei onde nessa caminhada os nossos caminhos ousaram se desencontrar.

Dizem por aí que a paixão dura 1, 2 anos, depois disso a relação deve se sustentar pelas próprias pernas. Nós não colocamos uma meta, deixamos a meta aberta e quanto alcançamos a meta, dobramos ela. Acho que, no final das contas, demos um golpe em nós mesmos. Nos acomodamos de tal forma que, quando caímos na real, encontramos dois desconhecidos vivendo no reflexo de nossos olhos. Se não sabemos onde nos perdemos, como voltar e retomar a partir desse ponto?

É preciso reconhecer quando não dá para seguir adiante. Não seremos covardes por desistir. Aliás, desistir também pode ser um ato de coragem e uma prova de amor, afinal, deixar partir quem se ama é permitir que ela busque ser feliz em outro lugar.


VITOR VILAS BÔAS.

Baiano, professor de história, apaixonado por política, café basquete, fórmula 1, natureza e pizza de atum com catupiry. Hoje caminha sem muita pressa pelas ruas de Aracaju, deixando as ideias fluírem através do encanto captado pelos seus olhos e ouvidos. Anda, frequentemente, de sorriso e coração abertos, vivendo com a intensidade que os seus 30 anos ensinaram.

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