O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 12 de julho de 2016

O CRIADO MUDO



Certa vez eu li uma crônica em que o escritor Mario Prata descrevia o desabafo indiscreto de um criado mudo  aquele móvel que fica estacionado num canto de um cômodo qualquer. Na referida crônica, o autor citava um episódio de mudança residencial em que o criado abandonou seu “status mudo” e ao cair no processo de deslocamento, escandalosamente revelou as intimidades que habitava seu interior: itens pornográficos e lembranças particulares, um tanto quanto constrangedoras. 

Aparentemente, esta inofensiva peça detêm a função decorativa e/ou acumulativa. No meu caso, a função acumulativa sempre foi adotada e a última gaveta se tornou o destino certo para esconder minha nostalgia e calar a dor sentimental que insiste em  silenciosamente  fazer um estrondo no meu peito. Todas as minhas lembranças fotográficas daqueles anos que passamos juntos foram endereçadas para aquele criado, antes mudo, agora desagradável e ensurdecedor.

Ontem ele resolveu abrir uma de suas bocas  logo a boca que me faz sofrer  , jogando na minha cara cenas de uma felicidade vencida.

Descobri de forma trágica que sentimentos bons tem prazo de validade e que a lembrança que tanto aflige é um bumerangue, que é lançado ao léu e quando menos se espera, volta com tamanha e assustadora intensidade. Lembrei das juras eternas que enfatizavam nosso relacionamento e não consegui encontrar o caminho no qual a nossa afinidade se perdeu. Cogitei a possibilidade de rasgar todas as fotos, queimar todas as cartas, destruir o maldito movelzinho, mas nossa história tem uma espécie de backup no meu cérebro, que não permite  por mais que eu queira  realizar nenhum tipo de alteração ou remoção.

Já pensei em passar diante do seu portão, feito um cachorro sem dono, e aguardar seu modo clemente me ofertar aquele colo que, de tão quente, me fazia transpirar em noites frias de inverno. Também cogitei inúmeras vezes a possibilidade de passar diante de você trajando todas as peças do meu orgulho, omitindo minha genuína tristeza e esbanjando um falso estado de superação. No entanto, tenho absoluta certeza das dores que irei sentir ao reprisar cenas de um passado, outrora mágico, hoje maligno e arrebatador.

Maldito criado mudo, abrigo das dores ocultas.

Tentei transferir o conteúdo daquela última gaveta para um cofre secreto, trancá-lo com auxílio de um cadeado sem chaves e calar na base da opressão, memórias físicas de todo meu arquivo mental. No momento exato abriu-se a primeira gaveta, revelando boleto do cartão de crédito, guia de arrecadação do IPVA e IPTU e aquela gigantesca conta telefônica, prestes a atingir a data limite de pagamento. 
 Neste instante percebi que não adianta ocultar os problemas  independente da sua intensidade, forma ou origem   , mais cedo ou mais tarde eles vem à tona. Vou apenas administra-los e mostrar ao mundo que a força da superação é o combustível que impulsiona a vontade de estar vivo.

Acho que ainda gosto muito de você, mas quer saber?! Eu me amo!


DIEGO AUGUSTO.
Mineiro de Belo Horizonte, engenheiro de produção por profissão e escritor por paixão. Amante da vida e das pessoas, acredita que os sonhos embalam a vida e o amor propulsiona os sonhos. Odeia o mais ou menos e pessoas que querem progredir cedo acordando tarde. Apreciador de cervejas e conselheiro de temas que pautam as mesas de bares.

7 comentários:

  1. Esse texto mexeu comigo de forma louca. Eu tinha um desses criados mudos, mas deixei pra trás quando me mudei. Fiquei aqui pensando onde estão as memórias que guardei na última gaveta e se algum andarilho com pouca sorte acabou esbarrando nas minhas saudades e lembranças bonitas.

    SENSACIONAL esse texto, Diego.
    Cada dia mais fã de você ♥

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