O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 15 de julho de 2016

SÍNDROME DOS PÉS DE BAILARINA



Júlia acordou cedo como de costume. Não precisava de nenhum despertador para isso. Seu organismo era como um relógio infalível. Sentou-se na cama e ignorou os ponteiros por alguns instantes. Afinal era o seu aniversário que se repetia pela trigésima quinta vez.

Olhou para baixo e viu seus pés de bailarina. Ela mesmo os havia apelidado dessa forma, apesar de nunca ter praticado balé. Talvez por eles não serem esteticamente apresentáveis e já estarem bem calejados. Os 35 anos que ambos carregaram foram um tanto pesados- ou bem vividos, depende do ponto de vista-.

Isso funcionou como um insight para Júlia. Mesmo que fosse algo simbólico, a fez pensar e muito nos caminhos que percorrera durante a vida e em tudo que tinha feito pra chegar até ali. Ela era jornalista, colunista de uma revista feminina bem renomada e crítica de cinema. Mas de repente notou o tanto que era mais complicado realizar uma auto análise.

Levantou-se da cama e foi ao banheiro iniciar sua rotina matinal. Lavou o rosto e ficou olhando seu reflexo, fixamente, no espelho por alguns segundos. Ela podia ver algumas rugas começando a se formar no canto dos olhos, que aliás eram bem fundos e escuros. Escovou os dentes, que eram muito bonitos por sinal, e começou a pentear os cabelos vagarosamente. Essa era uma das vantagens de "acordar com as galinhas", como sua avó dizia. Assim ela podia fazer tudo com bastante calma. Para alguém perfeccionista como Júlia, isso era essencial.

Seu celular começou a vibrar com o toque da música Come Together dos Beatles. Por ser sua canção preferida, ela sempre enrolava um pouco pra atender e parava tudo o que estava fazendo pra cantar e tocar sua bateria imaginária.n Era sua mãe, Denise, querendo dar os parabéns pra sua única filha. Afinal, Denise era da geração na qual as pessoas se ligavam pra transmitir felicitações e não apenas publicavam na linha do tempo do Facebook. As duas se falaram brevemente, até porque Denise sabia como ninguém o quanto a filha não gostava de ser interrompida durante os afazeres.

Júlia era uma mulher "sozinha", ou pelo menos assim era vista pela sociedade. Por nunca ter se casado ou ter tido filhos. Até teve relacionamentos longos, mas nunca os colocava como prioridade. Eduardo, seu último namorado, terminou o relacionamento de quase três anos com a justificativa de que Júlia era independente demais. E ele estava certíssimo! Parece que em pleno ano de 2016, os homens ainda não estavam preparados para se relacionar com mulheres seguras financeiramente e sentimentalmente. E não, Júlia não tinha vários e vários gatos. Preferia os cães, mas achava injusto limitá-los ao seu apartamento de 45 metros quadrados.

Júlia deu uma conferida rápida nos grupos do whatsapp, geralmente não tinha muita paciência pra eles. Combinou com alguns amigos da revista um happy hour após o expediente e respondeu poucas mensagens de aniversário. Só as que realmente sentia alguma verdade. Terminou de coar seu café e saiu de casa com antecedência como era de prache. Mas dessa vez resolveu mudar sua rotina.

Passou na loja de lingerie que ficava embaixo do seu prédio, mas que nunca tinha entrado. Olhou o conjunto que estava na vitrine. Era rendado e vermelho. A vendedora se aproximou e a abordou:

— Bom dia! Vamos entrar e conferir nossas promoções?

— Bom dia. Nem preciso olhar mais. Quero este da vitrine, tamanho G.

— Nossa! Como a senhora é decidida. Mas tenho certeza que fez uma ótima escolha. Ela é campeã de vendas e as clientes sempre dizem que os parceiros adoraram.

— Essa eu vou comprar exclusivamente para mim. É um auto presente. Só posso dizer que eu já adorei.

A vendedora estava sentindo um misto de espanto e admiração com as palavras de Julia. Fez o cadastro e viu que era o aniversário dela. A parabenizou e acrescentou um belo laço de fita ao embrulho do presente e também um cartão em branco.

— Volte sempre, Júlia! Tenha um ótimo dia

— Voltarei, com certeza! Ótimo dia pra você também.

Júlia sorriu e antes de começar a dirigir até o trabalho, pegou aquele cartão e escreveu:

De: Mim
Para: Eu mesma

"Esteja todos os dias bonita pra si, de dentro pra fora. Que suas auto cobranças não sejam motivadas por cobranças que, na verdade, são de outrem. Se ame!".

Olhou novamente seu reflexo —  dessa vez pelo retrovisor —  passou um batom vermelho carmim que adorava e colocou sua canção preferida no último volume. Foi trabalhar cantando o refrão bem alto e balançando a cabeça sem medo de desarrumar os cachos.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

2 comentários:

  1. Gabrielle linda roveda! Muito obrigada pela leitura. De coração memso!

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