O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 14 de julho de 2016

ENTRE SEM BATER


No alto de uma colina, rodeada de belas e enraizadas árvores, onde o vento soprava serena e frescamente fazendo semicerrar os olhos nas manhãs de primavera, lá ficava a minha casa. Uma choupana humilde, bem construída, sem luxo, mas com muita paz e conforto. Todas as manhãs ouvia o trinar dos canários e até mesmo o canto d’alguma cotovia solitária que, volta e meia, flanava em meu quintal. Não havia sobressaltos no recôndito de meu lar.

Os móveis eram simplórios em madeira nobre, a cor já um tanto carcomida pelo tempo. Pairava na cozinha um aroma de café fresco e o cheirinho bom de feijão novo preparado no fogão à lenha. Que vida bucólica eu levava! A paz da natureza parecia inatingível, garantindo uma vida aconchegante e até um pouco sem graça.

Foi numa segunda-feira à tarde que o tempo se armou de fato. Nuvens espessas formaram-se no céu outrora azul e agora enegrecido. Raios fluorescentes rasgavam o céu e trovoadas retumbavam a cada minuto fazendo tremer as paredes da choupana. Passei a mão no machado e ensaiei a benzedura da tormenta quando fui atingido em cheio por uma faísca. Caí desacordado.

Morri?

Acordei num lugar que parecia o céu. E o inferno. Juntos. O cenário era de guerra, mas a atmosfera era de uma descontração anormal. Levei as duas mãos à cabeça procurando um galo, verifiquei em vão a presença de queimaduras na roupa, tudo sem sucesso. Minha casa perdera portas e janelas. Ao entrar na cozinha, garrafas de vinho, vodka, rum, absinto e graspa por todo o lado. Roupas íntimas penduradas no fogão à lenha partido ao meio.

Todos os móveis estavam riscados de batom vermelho vivo. Havia marcas de unhas nas cadeiras e a mesa estava repleta de penas. A cotovia cantava nua em cima de um tronco envergado num ritmo que lembrava Ragatanga. Uma gárgula tocava banjo em acompanhamento. Seres mitológicos assistiam ao show, entre eles um grifo, metade leão, metade águia e, pasmem, um bigode espesso. Risos ensurdecedores e ruídos de louça quebrando quase estouravam meus tímpanos.

Passei a mão numa vassoura e pensei em iniciar uma faxina, mas dois segundos depois me vi dançando Macarena com doze anjos e doze diabinhos que usavam óculos escuros. À esquerda, no corredor do banheiro, um homem de cento e doze anos bebia vinho no bico de um garrafão de cinco litros enquanto usava uma máscara cujo rosto era metade choro e metade gargalhada.

Até hoje ainda não sei se estou acordado vivendo a maior loucura de todas, ou se morri trucidado pela tempestade e estou no saguão do juízo final aguardando para pagar os meus pecados. O fato é que este é o cenário desde que você chegou na minha vida. Tudo está do avesso, divertido e fora do lugar. 

Bem-vinda ao meu coração, mas não repare a bagunça. Desfrute.

OCTAVIUS, O GATO.
Sou um gato de bigodes que ama. Mas o que é o amor? Entre outras coisas, ele também é anônimo às vezes. E é por isso que não estou aqui para dizer coisa com coisa. Não tente me entender, tampouco me julgar. Apenas ame comigo. Miau.

2 comentários:

  1. Caralho... sem dúvidas, um incrível texto. Parabéns!

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  2. Precisava ler algo tão bom assim. Nada clichê,nada previsível. Tudo lindo! E o seu vocabulário riquíssimo. Parabéns!

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