O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DUAS TAÇAS


Era uma noite comum pós expediente. Duas taças de vinho seco repousavam sobre a mesa. Rodrigo pensou em tudo. Colocou o ambiente à meia luz como Luíza gostava. Não que ela fosse tímida, muito pelo contrário. Luíza era liberta dos padrões, principalmente quando o assunto era sexo. Não tinha vergonha de nenhum centímetro sequer de seu corpo. Mas a tal meia luz trazia uma sensação de descoberta e aconchego. Era a linha tênue entre o conforto da intimidade dos dois e o tesão da novidade. Rodrigo era desses homens que boa parte do público feminino idealiza. Bombado? Musculoso? Moreno, alto, bonito e sensual? Não. Rodrigo era um homem que reparava em sua parceira. Não com olhos julgadores pra medir imperfeições, mas a olhava com um tom de poesia. Admirava cada uma das curvas de sua mulher- Adorava se referir a Luíza dessa forma, não no sentido de posse, mas por sentir orgulho-.

Luíza sempre caprichava nas lingeries pra ele. E fazia em ocasiões não esperadas. Dessa vez, Rodrigo que resolveu pensar em um visual que a agradasse.Escolheu uma cueca boxer preta que contrastava com sua pele demasiadamente branca. Vestiu uma blusa social preta bem passada, calça jeans e sapatênis. Se arrumou cuidadosamente como se os dois fossem sair pra comemorar algo. Não esqueceu de colocar a dose exata de perfume, o que Luiza mais gostava -e nem era o preferido dele -. Mas hoje ela era a protagonista da noite. Ele estava decidido a agradar e não queria falhar em nenhum detalhe.

Não, Rodrigo não tinha aprontado nada e nem se sentia em débito com Luíza. Queria apenas dar tudo de si, ainda que isso nunca parecesse o bastante. Não para Luíza. Ela amava tudo que ele fazia pra ela. Desde um bilhete simples na geladeira até as viagens mais loucas que ele planejava. Mas pra ele nunca era o suficiente. Rodrigo a amava de uma forma tão rara e sublime, que queria sempre surpreender. Era praticamente um auto desafio (e ele amava desafios!) Amar Luiza já era simples demais. Ele a achava tão perfeita até no jeito de errar. Luíza era extrovertida, inteligente, amorosa, leve, mas ao mesmo tempo decidida e dona de uma personalidade forte.

Colocou na playlist a série aleatória de canções do Chico Buarque que ela adorava pra tocar na altura ideal e ainda ouvir os primeiros passos da amada ao entrar em casa. Luíza chegou como sempre de mansinho. Largou a bolsa no sofá e já sentiu o cheirinho de lasanha saindo do forno. Era sua comida preferida. Olhou Rodrigo todo arrumado, o abraçou e beijou lentamente até mesmo antes de saudá-lo. Rodrigo a segurou pela cintura com uma firmeza de quem quer sempre o mais perto possível.

Os dois prosseguiram sem dizer uma palavra. Elas eram dispensáveis diante do olhar de um para o outro. As almas conversavam ali numa sintonia doce. Luíza desabotoou com cuidado cada botão da blusa social de Rodrigo e lhe beijou o tórax demoradamente. Ele a acariciava com a barba no pescoço do jeito que ela gostava. As taças de vinho continuaram intactas sobre a e mesa. Eles as esqueceram. Era sempre assim quando estavam juntos e com os corpos entrelaçados: tudo que acontecia lá fora era um mero detalhe. É, acho que isso costuma acontecer quando um é o mundo do outro.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

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