O amor é brega. E quem não é?

terça-feira, 26 de julho de 2016

COMO VEJO VOCÊ, GATINHA.



Hoje vou descrever a minha gata. Desde que meus miados noturnos foram substituídos pelo ronronar de nossa história, meu conceito de beleza restringiu-se a dois únicos grupos: a dela e a do resto. Existe o que é belo e ela, sublime, arrebatadora, dona de todos os meus olhares, desejos e planos. Troquei a adrenalina de caçar ratos pelo encantamento de passar a tarde enrolado em um novelo de lã. Lhes digo, não é fácil esta minha vida de gato.

Ela tem o contraste perfeito de preto e branco. Branquinha, branquinha, branquiiiiinha... as reticências são a tradução do quanto fico abobado em admira-la assim, alva como a nuvem mais fofa e confortável do céu. Em contrapartida, o negrume reluzente de seu pelo lhe concede o melhor brilho e passa os dias esvoaçando, respingando encanto e ternura, charme e sedução.

Esta gata, meus caros, tem o sorriso mais hipnótico de toda a minha vida. Freud teria frieiras nos dez dedos do pé se a conhecesse. Quando ela sorri, o mundo muda de cor e o deserto vira paraíso. Moisés seria capaz de abrir o Mar Vermelho com a força daquele risinho maroto que é capaz de partir ao meio um oceano com a leveza de uma pluma que flana mansa na brisa da primavera. É uma boca que inspira poetas, que traduz sentimentos e arrebata o peito em qualquer mordiscar de lábios.

Seu jeito de andar é um desfile. O modo como constrói cada passo dá a impressão de que mal toca os pés no chão. Quem levita sou eu quando caminha em minha direção, ergue uma sobrancelha e derrama sobre minha alma seu enigmático sentimento. Em cada traço, um verso. Cada curva de seu corpo guarda um segredo, um aprendizado que não cessa e instiga a querer mais sem nunca parar.

O perfume é o próprio paraíso. Toma conta de meus fartos bigodes, inebria o meu entorno e acompanha minhas horas. Se estamos longe, fecho os olhos e milagrosamente consigo recordar aquele cheiro que entranhou no que de mais puro consigo sentir por ela e pela vida em meus melhores dias. Ela contempla a essência de todas as flores sendo uma só.

Por último, o mais importante. Aquele olhar. Ele é indescritível, a começar pela cor. Não há definição para a perfeição do matiz que toma conta dos mais belos olhos que já encarei em toda a minha vida. São olhos que não apenas falam, mas também sentem e fazem sentir. De dentro deles vem a minha força e a vontade etérea de ser feliz. Ela tem os olhos que enxergam o que ninguém mais vê, com a beleza que ninguém mais tem.

Minha gata, senhoras e senhores, é a composição única do que existe de mais belo à luz da minha interpretação. Manhosa, inteligente, marota, como toda gata. Desliza pelas cobertas e se rola na cama como se tivesse a necessidade de espojar sua exuberância ao sabor da minha admiração. À noite, todos nós gatos somos pardos. Menos ela, que tem no semblante a cor perfeita.

OCTAVIUS, O GATO.
Sou um gato de bigodes que ama. Mas o que é o amor? Entre outras coisas, ele também é anônimo às vezes. E é por isso que não estou aqui para dizer coisa com coisa. Não tente me entender, tampouco me julgar. Apenas ame comigo. Miau.

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