APRENDI VOCÊ SEM TE PRENDER COMIGO.

by - julho 05, 2016

  Ouça enquanto lê 

Eu disse algumas vezes. Contei primeiro para as paredes, depois pros bloquinhos de anotações. Deixei lembretes no celular. Espalhei alguns rascunhos pela vida a fora. Só não disse em voz alta. Não escrevi te contando a falta que me fazia. Não expus a bagunça de sentimentos que seu perfume deixou. Não quis causar desconforto, também não quis mexer no "time que estava ganhando". Pareceu o melhor. Mas não foi o suficiente para acalmar o coração. Também não bastou para que tudo se ajeitasse e a paz voltasse ao lugar.

Eu lido com a pressão do mundo ali fora, carrego fardos nas costas e não reclamo, mas confesso que calar você foi doído demais. Foi como se eu tivesse dado um tiro no meu próprio pé e fizesse a linha descolada enquanto por dentro estava em brasa. Passei algumas noites em claro tentando decifrar os porquês mais ilógicos que experimentei nos últimos meses. Confesso, deu desespero. O incerto me assusta e o mais irônico é que você sabe disso.

Você sabe todas as feridas que estão ardendo, tem conhecimento de causa de todas as cicatrizes que colecionei antes de você chegar até mim. E agora, como eu iria dividir o peso que sua ausência me causava? Eu quis mudar de ares, de rotina, de caminhos. Desejei não sentir saudade, não carregar em mim a lembrança do seu beijo ou dos arrepios que percorreram a espinha entre um abraço e outro. Não quis intensificar quem estava de partida.

Eu sempre soube que não daria em nada, mas o coração foi traiçoeiro, se prendeu, se enroscou e começo a me convencer que também me enganou. Pensei em diversas formas de dizer o quanto que estava doído conjugar sozinha o verbo querer. E isso implicaria em não pensar duas vezes e largar tudo pro alto, porque depois de tantas idas e vindas a última coisa que sinto é medo. Eu solto o freio de mão, seguro a sua mão, a barra que é lidar com as inconstâncias todas e fico quietinha te aninhando no colo, enquanto a gente desvenda os mistérios que envolvem essa dependência imediata que o meu corpo sentiu do seu.

Eu sei, escrevendo parece ainda mais absurdo, mas é como a gente vive dizendo: não dá para prever o próximo rodopio ou marcar hora pro próximo descompasso.

Eu me distraí no seu sorriso, me encantei com o seu abraço e me diverti com a maneira sutil que tinha de ir e vir, de me fazer esquecer que já tinha dado tudo errado antes e que agora daria de novo, porque você era um erro assumido e escancarado pra mim. Pro meu bom senso e razão. Mas sabe como é, coração não tem medo de dançar na chuva, te sentiu bagunçar tudo e antes que eu pudesse segurá-lo saltou boca pra fora e se perdeu de mim, se achando numa parte bem bonita de você.

MARCELY PIERONI.
Escritora, administradora e chef de cozinha por escolha. Perdeu o medo de sair do lugar e desde que começou a publicar seus textos coleciona viagens onde pode abraçar seus leitores e estar mais perto daqueles que acolhem sua baguncinha. Palestra e conta histórias para crianças. É sonhadora de riso frouxo.

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