O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 13 de junho de 2016

SOBRE O FIM



Clarice dobrou as últimas mudas de roupa e colocou em cima da cama. O travesseiro fazia contrapeso ao porta-retrato de madeira com uma fotografia dela e de Antônio  ainda no primeiro ano de namoro . Um ruído não identificado interrompeu o momento em que seus olhos fitavam aquela imagem sem sequer piscar. Clarice assustou-se. Coisa que raramente acontecia, mas agora ela estava sozinha em uma casa que, de repente, ficou maior do que aparentava.

Antônio não poderia imaginar que as coisas mudariam tão de repente. Ainda pensativo, segurava em suas mãos a chave da gaveta do escritório e girava de um lado para o outro naquela cadeira. Em cima da escrivaninha, estava uma pilha de papéis e uma série de documentos para serem analisados. Mas sua mente rodava, rodava... — assim como a cadeira acolchoada em que estava . Duas batidas na porta interromperam seu momento de reflexão.


 Dr. Antônio? Disse a secretária, com um tom um tanto preocupado.

— Diga, Isabel.
— Clarice está na linha. Posso transferir a ligação? Ela disse que tentou falar pelo celular e não conseguiu.
— Transfira.

Clarice tinha ligado sem esperanças de retorno. Em quase dez anos de casamento, aquilo nunca havia acontecido. Antônio nunca a atendera durante o expediente. Então, ao ouvir o simples “alô” do ex-marido, nem sabia o que dizer. Soou até mesmo como se fosse uma primeira conversa entre os dois. Aliás, nos últimos três anos isso era algo bem raro na rotina do casal: diálogo. Antônio e Clarice haviam desaprendido a se ouvir.

— Alô? Alô? Clarice? Está na linha?
— Oi, Antônio. Estou. Só não sei ao certo o que dizer. Me desculpe, nem deveria estar ocupando seu tempo. Vou desli...
— Não, Clarice. Calma. Fiquei aliviado com sua ligação. Estava justamente pensando na gente, na nossa história e até nos planos que não cumprimos. Percebi que sinto saudades suas.
— Eu também sinto, mas não de agora. Sinto saudades de ti há anos. Até mesmo quando ainda dividíamos a mesma cama.
— Sinto muito.
— Eu também sinto. Mas sabemos que assim foi melhor, né?
 — Na verdade não sabemos. Ainda vamos descobrir. Mas você é boa nisso de recomeçar. Tenho certeza que irá se sair melhor sem mim.
— Tem?
— Cla, preciso voltar aos meus papéis agora. Acho que você tinha razão quando dizia que me casei com eles.
— Não entendo tanto de “papéis” quanto você, mas sei que um casamento não começa, nem termina, quando assinamos um. Estamos formalmente divorciados, mas vai demorar mais tempo que isso pra eu me separar de todas as lembranças.
— Você sempre fala muito bonito, Cla. Pena eu não ter nunca o tempo suficiente pra te ouvir. Quem sabe, quando tudo isso passar possamos ser amigos.
— Não vamos nos enganar, Antônio. Se a gente tivesse conseguido ser amigo, talvez esse casamento nem tivesse chegado ao fim.
— Você tem razão. A amizade é algo precioso demais pra ser apenas prêmio de consolação. Cla, realmente preciso desligar. Fica bem.
— Ficaremos.

Clarice segurou o telefone contra o peito durante alguns segundos, respirou fundo, mas não chorou. Olhou novamente a fotografia com Antônio, esboçou um sorriso ao lembrar do jeito afetuoso que ele a chamara sem nem notar e... suspirou. Era mesmo o fim, mas isso não precisava ser algo ruim.

E ela decidiu que não seria.

SUÉLEN EMERICK
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.
*Fonte da Imagem*

5 comentários:

  1. Que texto mais suave, Súh. Ele faz pensar que até mesmo quando chega o fim o amor não se acaba.

    ResponderExcluir
  2. Putz...Suélen, fantástico seu texto.

    ResponderExcluir
  3. Putz...Suélen, fantástico seu texto.

    ResponderExcluir