O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

MAIS UMA DOSE, POR FAVOR!


Já são 7:30 da manhã e eu ainda não tive forças pra sair da cama, sinto que vou me atrasar, mas é quinta-feira, não tenho a desculpa de segunda, e não tenho como me abdicar das responsabilidades de adulta pra curtir os melodramas adolescentes que me perseguem desde a primeira desilusão amorosa.

Como não tem jeito, encaro um banho apressado, ignoro a dúvida do clima pra escolher a roupa da labuta e depois de uma xícara de café também feito na pressa, sigo. São apenas dez horas de uma rotina nada previsível e que cada dia que passa percebo que sou abençoada por fazer o que gosto, e apesar das aventuras termino o dia com a cabeça cheia e o coração feliz. Afinal, estou empregada, fato que é tão difícil nos dias atuais!

Sabe aqueles melodramas que falei a pouco, me esperaram sair do trabalho e me fazem novamente companhia?! Aqui estou, caminhando agora bem devagar pela cidade no caminho pra casa, mas não quero voltar pra lá. Tá tudo tão frio, calado, silencioso, cheio de lembranças boas e ruins! Enquanto paro num ponto qualquer e repenso meu trajeto observo tantos carros, pessoas, vidas inteiras inventadas por mim na tentativa de realizar algum sonho inconsciente criado ainda nos meus 12 ou 13 anos.

Amanhã é feriado, sem dia útil eu serei obrigada a preencher meu dia com algum programa brega, inusitado ou jovial e animado com os amigos, talvez até sozinha na menos pretensiosa opção. Atravesso a avenida e me permito conhecer um dos “points” tão comentados pelos conhecidos mais baladeiros da minha convivência, me acomodo no canto mais discreto do bar e analiso o cardápio como quem admira um barquinho desaparecendo no horizonte, a primeira pedida pode ser uma vodka pura e com gelo pra ver se esfrio a cabeça e acalmo o coração.

— Garçom, por favor!

A cidade já está mais povoada que o normal, me vejo abismada! Muita gente aproveita o feriado prolongado digo a mim mesma em pensamento, reparo as roupas das meninas, os casais sorrindo gratuitamente, mal educadamente ouço conversas de mesas próximas e completo mentalmente todo fim de noite e de histórias que decidi acompanhar.

Já na sexta dose da mesma bebida, nada está como antes! Eu dependo de alguém pra contar meus tormentos sentimentais, minhas faltas e as saudades que ainda nem senti, dos tocos tomados, das oportunidades perdidas e de tudo que não quis ganhar por medo de perder, o que nem era meu em alguma fase da vida.

Chamo o garçom de todas as doses, pago a conta e pacientemente entro num táxi que me leva de volta pra um mundo que só eu visito e não faço nenhuma força pra melhorar, insisto em reclamar e não deixo ninguém mais entrar. Ali acabo minha quinta-feira, bem cedo me deito e adormeço, com a ajuda alcoólica da vodka que me embalou suavemente até uma sexta-feira vazia e cheia de fatos desnecessários, que não faço o mínimo esforço de desapegar.

JOANY TALON
Pra quem acredita em horóscopo é Canceriana, nascida em Araruama no dia 15 de julho de 1986, assistente social pela Universidade Federal Fluminense, e agraciada por Deus pelo dom de transformar em palavras tudo que sente, autora dos livros “Cotidiano & Seus Clichês” e “Intrínseco” e co-autora no livro “Pequenices Diárias”.

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