O amor é brega. E quem não é?

quinta-feira, 30 de junho de 2016

CADARÇOS, BICICLETAS E MEMÓRIAS.



Quando criança, Ana não sabia fazer laço nos cadarços do tênis escolar. Era sempre seu pai que cuidava dessa parte. Se por acaso eles desatassem durante o horário da aula, era um dilema. Às vezes Ana desistia e os colocava pra dentro do tênis pra não tropeçar.

Aliás, a palavra "cadarço" foi uma das que Ana mais teve dificuldade de aprender a pronunciar. Sempre saía um "cardaço" ou até mesmo "cadastro". Ainda na pré escola, Ana ganhou um tênis com fecho de velcro, e se sentiu livre, como se todos os problemas do mundo tivessem se encerrado ali.

Outro fato curioso sobre Ana, é que ela não sabe andar de bicicleta. Até teve algumas durante a vida , mas só conseguia passear por alguns metros se elas tivessem rodinhas. Quando virou adolescente, tornou-se socialmente inconveniente que ela usasse desse auxílio. E até hoje quando alguém usa a expressão "tal coisa é como andar de bicicleta, a gente nunca esquece", ela sorri e finge entender.

Ana completou 25 anos semana passada, mas ainda dorme com vários travesseiros e pelúcias em cima da cama. Algumas são pelúcias de estimação, que ela guarda e cuida há anos. Gosta de abraçá-los, e talvez tudo fosse mais fácil se ela fizesse o mesmo com as oportunidades. Vivem dizendo que ela precisa de um amor, e que quando se casar, automaticamente essa mania vai desaparecer.

Mas não sei, acho que Ana precisa mesmo é aprender a se abraçar. A se amar. A crescer. Não em estatura. Essa é até bem avantajada. Ana tem 1,75 de altura e está acima da média nacional. Ela precisa começar a entender que na vida nem sempre podemos substituir os cadarços por fechos de velcro. Somos obrigados a encarar os problemas e resolve-los. Mas confesso que no fundo, eu tenho que concordar com Ana e até invejo sua forma inocente de ver o mundo. Afinal, é bem chato isso de brincar de gente grande, né?

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.



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