O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 15 de junho de 2016

AMAR CONFUNDE

Eu tinha vinte anos quando tomei a primeira grande decisão que revolucionaria minha vida. Pensei estar dando a grande cartada e definindo eternamente os rumos que seguiria dali em diante. A gente sempre tem essa tendência de imaginar que grandes guinadas são eternas. Pus em prática. Durou exatos sete meses e tive que voltar à estaca zero.

Dei algumas voltas na vida e cheguei aos vinte e cinco. Decidi casar. Agora sim, ces’tfini, tudo está dito e feito. Disse sim ao padre e jogaram arroz no meu cabelo engomado de gel (relendo essa frase vejo que parece que casei com o sacerdote, mas não. Ah, vocês entenderam). A vida a dois, naturalmente, sofre mutações em seus sentimentos, mas a gente sempre pensa – ou tem a intenção de pensar – que é para sempre, quando na verdade o certo é ser infinito enquanto durar. Os poetas e os pagodeiros não erram.

Cruzei então a barreira dos trinta. Oi, Balzac. O que pode acontecer na vida de um homem de três décadas, estável e equilibrado emocionalmente? Na minha, julgava que nada. Com o passar do tempo, assimilei a ideia de que os acontecimentos estão aí para modelar o que sentimos e, uma vez petrificado, não há água mole que tanto bata no coração até que fure. E, de mais a mais, a estabilidade de um casamento sem fortes emoções pode não ser lá muito animadora, mas estamos cansados de conhecer pessoas que preferem mil vezes as voltas de um carrossel a terem que morrer berrando na efusão de uma montanha-russa.

Pois bem, sem mais nem menos a pedreira explodiu com toda a força. Dinamite pura. Não restou pedra sobre pedra. E eu, que já nem lembrava mais de como era pulsar de nervoso por causa de alguém, passei a ter taquicardia, sudorese nas mãos e uma angústia que não apertava o peito há praticamente dez anos.

O mais curioso disso tudo vocês nem sabem: eu gostei de sentir isso. Adorei me sentir vivo outra vez e fiquei mais feliz ainda ao constatar que meu empoeirado coração seria sim capaz de amar novamente. Cerrei os olhos, permiti que os pés saíssem do chão e deixei que o embalo desse sentimento passasse a governar os meus melhores e piores momentos.

Tem sido revigorante, claro que tem. Mas não há amor sem sofrimento e não há escolha sem renúncia. Quem perde as rédeas das suas emoções fica à mercê dos altos e baixos da supracitada montanha-russa e, meus amigos, os momentos de frenesi passam a flertar com os de desespero. A cada curva, a impossibilidade de adivinhar o que virá a seguir impede que saibamos o que vamos ou não sentir. É doido, é adrenalina, mas é tenso.

O mais irônico é que, no fim das contas, a ordem dos fatores não alterao produto. E eu, que não sabia de onde vinha e para onde iria, tampouco agora sei onde estou. Amar é, de qualquer forma, um tiro no pé. A gente apenas escolhe se vai ser com pistolinha de chumbo, ou com bala de canhão. Neste exato momento, estou usando lança-chamas. Arde e não se vê. Fernando Pessoa sabia das coisas. Morreu jovem. Eis o busílis.

OCTAVIUS, O GATO
Sou um gato de bigodes que ama. Mas o que é o amor? Entre outras coisas, ele também é anônimo às vezes. E é por isso que não estou aqui para dizer coisa com coisa. Não tente me entender, tampouco me julgar. Apenas ame comigo. Miau!

5 comentários:

  1. Uaaaaaaaaau!
    Acho que não só no amor mas como na vida as coisas acontecem exatamente dessa maneira, a gente se acomoda e acha que tá tudo certo e que não há nada que possa mudar e de repente vem a vida e trás um vendaval que tira tudo do lugar e é ai que a gente se reencontra. É sempre bom percebermos o quanto estamos vivos novamente!
    Beijos

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  2. só não digo que esse texto é do caralho, gato, pq já li teus próximos :D

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