O amor é brega. E quem não é?

quarta-feira, 4 de maio de 2016

CONVITE À IMAGINAÇÃO


Já se passavam das 20 horas daquele sábado sem grandes pretensões. Como companhia, havia um vinho tinto barato, um maço de cigarros já pela metade e o blues de Mark Schlaefer anestesiando-lhe na playlist de seu computador. Sua intenção era terminar a noite mastigando os versos de Baudelaire, no livro que comprara alguns dias antes num sebo descoberto, ao acaso, em uma de suas andanças pelo centro da cidade. Eis que, entre a melancolia sonora e a fumaça de seu terceiro cigarro da noite, seu celular vibra sobre a mesa.

 Rafa, tá fazendo alguma coisa?

Camila, uma linda carioca que havia se mudado para sua cidade a fim de estudar psicologia. Se conheceram quando um amigo de um amigo de um conhecido os apresentou durante uma dessas festas de república. Só foram ficar depois do terceiro ou quarto encontro, na saída de um barzinho que a galera frequentava às sextas, depois das aulas. Um beijo longo na despedida, seu número anotado no verso de um cartão qualquer e só deu tempo de vê-la jogando-o dentro da bolsa.  Ao menos o beijo foi bom  pensou sorrindo, já imaginando os 15 minutos que ainda andaria até chegar ao seu prédio.

 Desculpa, mas quem é?
 Rafa, é a Mila. Amiga da Pri e do Elias. A gente se conheceu no barzinho da praça há uns 10 dias, lembra? Desculpa não ter falado antes, foi a correria...

Na verdade já se conheciam há mais tempo, mas ele acredita que seu vasto conhecimento em GOT só pôde ser notado naquele dia do barzinho, que foi quando ela realmente reparou nele.

 Sim, Mila! Claro que lembro! Relaxe quanto a correria, coisa normal. Como você tá?
 Estou bem. Se não estiver fazendo nada, apareça aqui no prédio da Pri. Meu apartamento é o 201 e tem uns vinhos aqui na geladeira.
 Tranquilo, chego em meia hora. Bjos

Entre não fazer nada em casa e jogar papo fora entre amigos, claro que a primeira opção foi logo descartada. Baudelaire que esperasse, de repente até uns beijinhos poderiam sobrar para fechar a noite. Depois de um banho rápido, desceu com o capacete e a chave da moto na mão e seguiu o caminho à espera de um fim de sábado de boas risadas, música e vinho. Mas não foi exatamente o que encontrou ao chegar, faltando ainda 5 minutos para findar o prazo que deu, sem nem estranhar o fato de não ter sido sua amiga quem fez o convite.

Interfone, portão, escada... apartamento 201. Camila apareceu em um vestido estampado de flores azuis. Cabelos soltos, na altura do ombro, ainda molhados de quem acabara de sair do banho sem ter dado tempo de secá-los por completo. Um perfume doce suave que lhe invadiu até alma quando ela o recepcionou com um abraço logo depois de abrir a porta. Nem sinal da Pri e do Elias como imaginara, mas o vinho, juntamente com duas taças médias, repousavam sobre a mesa. Nem precisariam...

A iniciativa foi ela quem tomou. Num primeiro momento, Rafa ainda hesitou levemente. Não que não quisesse, muito pelo contrário, mas ainda estava surpreso por não ter ideia da intenção dela ao lhe fazer o convite. Ao perceber sua inquietação, Mila apenas sorriu. A noite estava somente começando...

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