O amor é brega. E quem não é?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

PÉS DESCALÇOS

Fonte: aplus.com

Quem nunca ouviu falar nos benefícios de se andar descalço dentro de casa? Não há sensação mais gostosa do que abrir a porta e jogar aquele sapato apertado para o canto da sala, já sentindo o chão gelado, dando a sensação de alívio que lhe percorre todo o corpo. A liberdade para os pés, a certeza de onde você está pisando, nada que aperte, sufoque ou machuque. E por que quando passamos a morar no coração de alguém deveria ser diferente?

Nosso coração é a nossa casa. Permitimos entrar somente aquelas pessoas que sentimos que valem à pena estarem ali. É como se não abríssemos apenas a porta de casa. Deixamos uma cadeira à mesa já certa para que ela se sente; uma xícara especial com tema natalino, onde ela bebeu café naquela primeira visita de muitas que lhe fez; a metade da terceira gaveta da cômoda no quarto – a única que não está emperrando, já que as outras você jurou consertar, mas sempre se esquece. Ou não -; um pote de azeitonas – que você odeia – guardado no armário, esperando só o momento certo de surgir naquele prometido almoço de sábado... E ela já sabe, inclusive, que a primeira coisa que fará ao passar pela porta, depois, óbvio, da sequência sorriso-beijo-abraço, é descalçar os pés e sentir a segurança de pisar naquele mesmo chão, que lhe dá a sensação de saber onde está pisando exatamente.

Tirar os sapatos ao entrar na vida de alguém é mostrar que se sente em casa. É mostrar que podemos nos sentir à vontade em qualquer lugar, abrir a geladeira, deitar no sofá, pedir a senha do wi-fi ou abusar o gato e, quando ele fizer menção de que não gostou, dizer que o bichano está possuído por algum espírito maligno. Mas, principalmente, é perceber que o simbolismo de se andar descalço ultrapassa o simples livrar-se de sapatos apertados. É preciso ver que aquele chão, que se está pisando, foi cuidadosamente trabalhado para receber a sua visita. Que não importa quantos por ali já passaram e não foram zelosos com as pequenas coisas que não lhes faziam diferença. Mas para o dono da casa sim.

Cada vez que deixamos alguém fazer parte da nossa vida, buscamos fazer uma reforma em nosso coração. Tiramos algumas tralhas, escondemos algumas imperfeições, reorganizamos nossa bagunça... exatamente igual ao que fazemos quando recebemos alguém em casa. E é um esforço válido. Não que precisemos esconder as rachaduras na parede – ou nossas cicatrizes -, mas sempre rola aquele medo que a pessoa olhe um pouco torto para o que incomoda em nós mesmos.

Então, quando vier, recomendo tirar os sapatos ao entrar. Garanto que a casa estará especialmente pronta para a sua chegada e, se for para ficar, já tem um espaço na cômoda. E no coração.



Vitor Vilas Bôas

5 comentários:

  1. Lindo! Ainda bem que sempre deixo a alma descalçada, sem medos! Parabéns, lindo texto!

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  2. Sempre perfeito! "A vida do outro, a casa do outro, o coração do outro, são todos templos sagrados que se pede licença para entrar. Solo sagrado, se pisa descalço."
    Descalça.. :)

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  3. Eu preciso mandar o teu texto pra alguém, Vitor. Obrigada por definir meu relacionamento. Achei a minha casa ♥

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