O amor é brega. E quem não é?

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

DESBAGUNÇANDO


Eu morava numa casa pequena, mas era enorme a quantidade de tralhas que eu guardava. Desde imãs de geladeira, até caixinhas com conchas que recolhi pelas praias por onde passei. Guardei milhares de folhas com letras de músicas que embalaram minha adolescência, minha fase ainda-adolescente-quase-adulta, junto com inúmeros encartes de CDs que eu nem me lembrava que tinha. Se eu realmente fosse listar tudo que guardei, ocuparia meses descrevendo e você gastaria meses lendo, então vamos parar por aqui. 

Receber visitas era quase impossível, para não dizer vergonhoso. Mal cabia a mim mesma lá dentro. Arrumar? Fora de cogitação. Onde guardaria tudo? Nem móveis eu tinha pra comportar aqueles restos de furacões. Então, logo após assinar o contrato que me levaria a morar em uma casa nova, maior e melhor, decidi. Não podia continuar, aquilo tudo tinha que ir embora. 

Enquanto separava tudo, percebi que a maior parte da bagunça era composta por coisas que não precisava mais, coisas que poderia ter doado para alguém, coisas que deveria ter jogado no lixo há muito tempo e até coisas que nem minhas eram. Aos poucos, fui me desfazendo do que não fazia nenhuma diferença, doei tudo que poderia ser mais útil para outra pessoa, tratei de devolver para seus respectivos donos o que tinha guardado, e joguei fora tudo que não tinha serventia. Em seguida, pude organizar o que ficou. 

Cada coisinha minúscula ganhou seu lugar especial, desde o incensário que perfuma meus dias mais belos até o peso da porta. Meus quadros ganharam seu espaço, minha coleção de filmes, livros e outras pequenices também. Comprei móveis novos, trouxe os antigos guardados na casa de um amigo, decorei minhas janelas com as cortinas aposentadas no fundo de uma caixa e pude até voltar a receber visitas sem passar vergonha. 

Foi exatamente nesse ponto que lembrei daquela comparação, bem comum, entre a vida e a casa de uma pessoa e percebi o que havia se passado.

Antes, por menor que a casa fosse, cabia um mundo de bagunça, faltando lugar para o que realmente importava, faltando espaço para organizar a mobília e os pensamentos, estava cheia de coisas e pessoas desnecessárias, lembranças descartáveis e tinha excesso de apego ao que já não servia mais. Depois a casa aumentou, podendo muito bem abrigar todas essas tranqueiras, mas ainda assim não teria como receber ninguém no meio daquela zona e nem poderia pensar em decorar coisa alguma. Por maior que fosse o espaço, os detalhes sutis passariam despercebidos, a beleza seria ofuscada pelo mundaréu de lixo que ficaria lá, atrapalhando a visão de quem quisesse admirar. 

Penso que hoje, minha casa reflete exatamente minha vida. Não está perfeitamente organizada ainda, preciso de muitas prateleiras pra enfileirar memórias, ainda existem caixas espalhadas pelo chão do quarto a espera de paciência para organizá-las e ainda estou cogitando mudar os móveis de lugar (de novo), mas definitivamente me livrei dos pesos e pessoas desnecessárias, as paredes da casa e da mente estão mais claras e já refletem o brilho de cada amanhecer, meus olhos novamente decorados e protegidos - tanto quanto as janelas - do que existe lá fora. E a porta? Essa está novamente aberta para receber visitas, marcadas ou não. Só um pedido:

"Sinta-se a vontade e só repare na bagunça se for se oferecer pra ajudar a arrumar".



*Imagem : Dragon Flies Of Night

3 comentários:

  1. dizem que a nossa casa é o reflexo da alma né? pessoas desordeiras tendem a ter a vida mais bagunçada e pessoas organizadas, uma vida mais coerente, regrada. Eu não tenho casa ainda, mas acho que minhas gavetas refletem bem esse esquema. É só em momento de muito amor interior que eu me sento no chão pra achar ordem. Ou colocar - nos armários e em mim

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  2. Eu costumo guardar muita tralha também, principalmente coisas relacionadas a faculdade. Mas tenho conseguido me livrar de algumas tralhas. E sim, isso faz uma grande diferença na nossa vida, nos deixa mais leves. O meu problema é ser apegada a coisas que não preciso mais.

    Lindo texto!

    Beijo

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