OLANZAPINA



Não somos essa gente que se submete a ver tragédias enquanto come.
Não sabemos quantas pessoas morreram no final de semana.
Nem sabemos como evitar golpes.

Não somos essa gente que vê late show.
Não aspiramos estáveis cargos públicos.
Trivialidades não nos preenchem.

Não tememos à luz.
A verdade não nos amedronta.
Nem nos aflige o que vão nos contar.

Queremos além das amarras.
Queremos entender.
E não estamos sós.

Não há nada maior do que é realmente belo.
Não há nada menor do que os interesses das pessoas comuns.

Tudo é novo.
Fora da conformidade tudo é desconfortável.
Sempre seremos loucos e ignorantes aos olhos de que ama às sombras.

HELIARLY RIOS.
É um amante. De política, economia e futebol. É um apaixonado por F1 e NFL. Garante o pão de cada dia e um teto para descansar trabalhando como analista contábil. Seu único amor é escrever de forma irresponsável e livre de culpa. O resto são paixões.

O DIA EM QUE ELA SE FOI.



Um dia ela cansou de viver na dúvida e resolver se arriscar. Nesse dia se despiu dos seus medos e vestiu uma coragem que jamais imaginou que tinha. Em sua mente o único pensamento era o de não arrepender de se permitir.

Se permitir chorar sempre que quisesse, se permitir rir de coisas sérias, se permitir tocar o foda-se pelo menos uma vez na vida, se permitir esquecer dos outros e ser um pouco egoísta, se permitir ser feliz sem se preocupar com o que outros achariam disso.

Ela saiu de seu casulo, mas ainda não era uma borboleta, e só então descobriu que o casulo é apenas uma forma de se proteger, mas é a liberdade que transforma a lagarta em borboleta. E era isso que ela queria, descobrir qual era o seu caminho de tijolos amarelos, qual era o seu objetivo, qual era o seu motivo para sempre acreditar na esperança.

Então não planejou nada, não pensou em como seria o dia de amanhã, nem se no mês que vem já teria voltado à sua vida de antes, ela apenas foi. Desde que ela se foi, viveu alegrias e tristezas, conheceu novas pessoas, mas também teve que lidar com a dor das partidas. Aventurou-se por locais onde jamais imaginou ter coragem de ir, fugiu de outros que tanto sonhou em visitar. Passou noites inteiras em claro e longos dias sem sair da cama. Amou, foi amada, e desamada. Sofreu, ficou triste e se recompôs. Chegou ao fundo do poço algumas vezes, mas fez como a fênix e das cinzas se recriou.

Ela se foi há tanto tempo, mas poderia ter sido ontem, ou poderá ser amanhã. Ela já não liga mais para as regras que o mundo impôs para seguir, pois em seu mundo apenas ela é quem faz as regras e por isso tem o direito de quebra-las sempre que quiser.

Ela, que cansou de esperar, fez acontecer, que cansou da imparcialidade, optou por si mesma. Ela que sempre foi ela, e nunca foi outra, continua sendo a mesma, com suas confusões e desilusões. Mas ela descobriu que quando a mudança vem de dentro, não importa que por fora você continue a mesma.

Desde o dia que ela cansou e se levantou, ela nunca mais voltou, pois descobriu que melhor do que ser uma é a possibilidade de ser muitas. Ela descobriu que não queria mais ser uma dela, mas sim varias “elas”, e cada uma tem um pouco para aprender e para ensinar, e se tudo der certo, ela se foi para nunca mais voltar.

TAMARA PINHO.
Jornalista por amor (e formação), mineira, e sonhadora como uma boa pisciana. Vivo na internet, então é fácil me achar. Acredito que a escrita é libertadora e nos possibilita viver em diversos mundos ao mesmo tempo.

INTEIREZAS



Nunca entendi essa coisa de medir os sentimentos. Estranho demais ter que amar menos pra não sofrer mais. Parece desonesto com meu próprio coração. Se a pessoa me ama menos, azar o dela! Vai ter o melhor de mim, mas nunca saberá de si mesmo!

Não tenho procurado certezas, mais que isso, eu anseio por experiências, aprendizados. Afinal, algumas dúvidas preenchem melhor alguns espaços. Sou movida pela Fé em Deus, no amor e sigo a filosofia de que mesmo acumulando dores, tristezas, dificuldades, a gente tem que agradecer, sorrir e lutar. Enquanto há vida, tem que haver motivos que levem à felicidade.

Pra falar a verdade eu tô exausta dessa coisa toda! Caras emburradas, reclamações lamentações... Será que não tem nada de bom? Comece pelo fato de que você está vivo, o que hoje em dia é coisa à beça!

Eu não tenho tempo pra ficar triste, é isso mesmo! Não tenho tempo pra ficar triste. Eu já tenho muito trabalho tentando arranjar tempo pra minha família, pro meu Amor, pros meus lazeres, meu trabalho, meus estudos e muito me falta tempo pros meus amigos. Não posso me dar ao luxo de perder meu tempo, afinal, ficar triste é desperdício de vida. E eu até sei que é impossível estar feliz a todo instante.

A verdade é exatamente essa. Nos deparamos com vezes em que podemos ESTAR, mas não devemos FICAR tristes. Tem que ser rápido, tem que ser como se devêssemos apenas experimentar uma pequenina dose de tristeza de vez em nunca e logo em seguida retomarmos a nossa força vital e busca incessante pela alegria, que apesar de não ser plena é o que vale à pena.

A vida não considera os nossos planos, ela simplesmente se aproveita de alguns deles pra satisfazer as suas próprias vontades. E há um caminho longo pela frente que me propõe o inesperado, mas fazendo o certo a gente pode esperar o melhor da vida! Pelo menos é desse jeito que mesmo que percebo as coisas, vivo a vida.

Cada um é protagonista da sua história, e não precisa escolher ser mocinho ou vilão, basta saber buscar seus objetivos sem deixar de respeitar os outros. Ser feliz é estar em paz consigo mesmo, desejar o bem e aceitar a vida aproveitando o melhor que ela puder dar.

Quando me dou, vou inteira, sem faltar parte alguma a me pertencer. Mas se por alguma razão tiver de ir embora, levo mais do que qualquer pessoa pôde perceber. Me trago de volta em dobro e o vazio que fica, se torna eterno no outro enquanto me re-preencho de mim.

JOANY TALON.
Pra quem acredita em horóscopo é Canceriana, nascida em Araruama no dia 15 de julho de 1986, assistente social pela Universidade Federal Fluminense, e agraciada por Deus pelo dom de transformar em palavras tudo que sente, autora dos livros “Cotidiano & Seus Clichês” e “Intrínseco” e co-autora no livro “Pequenices Diárias”



MOÇO, VOCÊ MEXE COMIGO



Tenho tantas coisas para te dizer que nem sei por onde começar. É isso que você faz comigo, me deixa confusa, sem saber o que falar. Parece até um furacão, que chega e bagunça tudo em mim, me faz dizer frases desconexas, me faz agir na defensiva por medo de que esse furacão chegue mais perto. Não sei se você sabe, mas, depois de tanto tempo, você foi a primeira pessoa que conseguiu chegar a um lugar mais fundo no meu coração.

Moço, você conseguiu me mostrar que eu não sou tão insensível quanto eu achava que era, você conseguiu desmontar todas as barreiras invisíveis que eu tinha por causa de feridas anteriores. Você foi um sopro de felicidade em minha vida. Me arrancou sorrisos e abraços, me fez ver flores por onde eu passava.

Mas aí, você sumiu. Puf! Do nada, desapareceu.

E depois apareceu como se nada tivesse acontecido. Foi aí que me vi mais confusa do que nunca. Montei minha armadura, pois fiquei com medo de me machucar. Você me achou estranha, que eu estava diferente, mas era medo. E assim me sinto até hoje. Com medo.

Depois da sua volta não quis mais me entregar, pois não sabia se você sumiria novamente. Pensei em qualquer coisa e disse que não poderia te encontrar, apenas por medo. E aconteceu como eu esperava, você sumiu, e depois voltou. Novamente, montei minha armadura.

Espero que você entenda, eu não sou grossa como pareço, é apenas meu mecanismo de defesa quando alguém ameaça tirar minha liberdade. Sei que não é isso que você quer fazer, mas é assim que eu sinto. A liberdade é minha melhor amiga, não sei viver sem ela. E você, aparentemente, quer tira-la de mim. E isso me dá medo. Nossas diferenças me dão medo. 

Sei que poderia ser bom conviver com o que nos difere e aprender mais sobre você, mas tenho medo. M-E-D-O. Essa pequena palavra tem tomado conta de mim e me deixado sem chão sempre que você aparece. Não sei o que você quer, não sei o que eu quero, não sei o que o futuro nos reserva, são muitas incertezas que me fazem ter medo de me envolver.

Moço, você mexe comigo. Me deixa boba, sem rumo, querendo me arriscar, mas tenho medo. Preciso de tempo pra entender o que se passa em mim, o que acontece entre nós. Desculpa se não consegui responder às suas expectativas, mas sou muito eu pra ser outra coisa.

Um beijo.



MARINA COUTO

21 anos, estudante de Letras, forrozeira e apaixonada por palavras. Escrevo pra me sentir livre, não tenho destinatário certo, acho que assim fico mais desapegada e escrevo Com a alma. Gosto de escrever para as outras pessoas saberem que não estão sozinhas. Quem vai ser meu interlocutor? Quem ler decidirá se aceita ser ou não. Se você se identificar, é um novo interlocutor, escreverei pensando que não estou só. Escreverei pra nós.
BLOG | FACEBOOK | FANPAGE | INSTAGRAM

SÍNDROME DOS PÉS DE BAILARINA



Júlia acordou cedo como de costume. Não precisava de nenhum despertador para isso. Seu organismo era como um relógio infalível. Sentou-se na cama e ignorou os ponteiros por alguns instantes. Afinal era o seu aniversário que se repetia pela trigésima quinta vez.

Olhou para baixo e viu seus pés de bailarina. Ela mesmo os havia apelidado dessa forma, apesar de nunca ter praticado balé. Talvez por eles não serem esteticamente apresentáveis e já estarem bem calejados. Os 35 anos que ambos carregaram foram um tanto pesados- ou bem vividos, depende do ponto de vista-.

Isso funcionou como um insight para Júlia. Mesmo que fosse algo simbólico, a fez pensar e muito nos caminhos que percorrera durante a vida e em tudo que tinha feito pra chegar até ali. Ela era jornalista, colunista de uma revista feminina bem renomada e crítica de cinema. Mas de repente notou o tanto que era mais complicado realizar uma auto análise.

Levantou-se da cama e foi ao banheiro iniciar sua rotina matinal. Lavou o rosto e ficou olhando seu reflexo, fixamente, no espelho por alguns segundos. Ela podia ver algumas rugas começando a se formar no canto dos olhos, que aliás eram bem fundos e escuros. Escovou os dentes, que eram muito bonitos por sinal, e começou a pentear os cabelos vagarosamente. Essa era uma das vantagens de "acordar com as galinhas", como sua avó dizia. Assim ela podia fazer tudo com bastante calma. Para alguém perfeccionista como Júlia, isso era essencial.

Seu celular começou a vibrar com o toque da música Come Together dos Beatles. Por ser sua canção preferida, ela sempre enrolava um pouco pra atender e parava tudo o que estava fazendo pra cantar e tocar sua bateria imaginária.n Era sua mãe, Denise, querendo dar os parabéns pra sua única filha. Afinal, Denise era da geração na qual as pessoas se ligavam pra transmitir felicitações e não apenas publicavam na linha do tempo do Facebook. As duas se falaram brevemente, até porque Denise sabia como ninguém o quanto a filha não gostava de ser interrompida durante os afazeres.

Júlia era uma mulher "sozinha", ou pelo menos assim era vista pela sociedade. Por nunca ter se casado ou ter tido filhos. Até teve relacionamentos longos, mas nunca os colocava como prioridade. Eduardo, seu último namorado, terminou o relacionamento de quase três anos com a justificativa de que Júlia era independente demais. E ele estava certíssimo! Parece que em pleno ano de 2016, os homens ainda não estavam preparados para se relacionar com mulheres seguras financeiramente e sentimentalmente. E não, Júlia não tinha vários e vários gatos. Preferia os cães, mas achava injusto limitá-los ao seu apartamento de 45 metros quadrados.

Júlia deu uma conferida rápida nos grupos do whatsapp, geralmente não tinha muita paciência pra eles. Combinou com alguns amigos da revista um happy hour após o expediente e respondeu poucas mensagens de aniversário. Só as que realmente sentia alguma verdade. Terminou de coar seu café e saiu de casa com antecedência como era de prache. Mas dessa vez resolveu mudar sua rotina.

Passou na loja de lingerie que ficava embaixo do seu prédio, mas que nunca tinha entrado. Olhou o conjunto que estava na vitrine. Era rendado e vermelho. A vendedora se aproximou e a abordou:

— Bom dia! Vamos entrar e conferir nossas promoções?

— Bom dia. Nem preciso olhar mais. Quero este da vitrine, tamanho G.

— Nossa! Como a senhora é decidida. Mas tenho certeza que fez uma ótima escolha. Ela é campeã de vendas e as clientes sempre dizem que os parceiros adoraram.

— Essa eu vou comprar exclusivamente para mim. É um auto presente. Só posso dizer que eu já adorei.

A vendedora estava sentindo um misto de espanto e admiração com as palavras de Julia. Fez o cadastro e viu que era o aniversário dela. A parabenizou e acrescentou um belo laço de fita ao embrulho do presente e também um cartão em branco.

— Volte sempre, Júlia! Tenha um ótimo dia

— Voltarei, com certeza! Ótimo dia pra você também.

Júlia sorriu e antes de começar a dirigir até o trabalho, pegou aquele cartão e escreveu:

De: Mim
Para: Eu mesma

"Esteja todos os dias bonita pra si, de dentro pra fora. Que suas auto cobranças não sejam motivadas por cobranças que, na verdade, são de outrem. Se ame!".

Olhou novamente seu reflexo —  dessa vez pelo retrovisor —  passou um batom vermelho carmim que adorava e colocou sua canção preferida no último volume. Foi trabalhar cantando o refrão bem alto e balançando a cabeça sem medo de desarrumar os cachos.

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

ENTRE SEM BATER


No alto de uma colina, rodeada de belas e enraizadas árvores, onde o vento soprava serena e frescamente fazendo semicerrar os olhos nas manhãs de primavera, lá ficava a minha casa. Uma choupana humilde, bem construída, sem luxo, mas com muita paz e conforto. Todas as manhãs ouvia o trinar dos canários e até mesmo o canto d’alguma cotovia solitária que, volta e meia, flanava em meu quintal. Não havia sobressaltos no recôndito de meu lar.

Os móveis eram simplórios em madeira nobre, a cor já um tanto carcomida pelo tempo. Pairava na cozinha um aroma de café fresco e o cheirinho bom de feijão novo preparado no fogão à lenha. Que vida bucólica eu levava! A paz da natureza parecia inatingível, garantindo uma vida aconchegante e até um pouco sem graça.

Foi numa segunda-feira à tarde que o tempo se armou de fato. Nuvens espessas formaram-se no céu outrora azul e agora enegrecido. Raios fluorescentes rasgavam o céu e trovoadas retumbavam a cada minuto fazendo tremer as paredes da choupana. Passei a mão no machado e ensaiei a benzedura da tormenta quando fui atingido em cheio por uma faísca. Caí desacordado.

Morri?

Acordei num lugar que parecia o céu. E o inferno. Juntos. O cenário era de guerra, mas a atmosfera era de uma descontração anormal. Levei as duas mãos à cabeça procurando um galo, verifiquei em vão a presença de queimaduras na roupa, tudo sem sucesso. Minha casa perdera portas e janelas. Ao entrar na cozinha, garrafas de vinho, vodka, rum, absinto e graspa por todo o lado. Roupas íntimas penduradas no fogão à lenha partido ao meio.

Todos os móveis estavam riscados de batom vermelho vivo. Havia marcas de unhas nas cadeiras e a mesa estava repleta de penas. A cotovia cantava nua em cima de um tronco envergado num ritmo que lembrava Ragatanga. Uma gárgula tocava banjo em acompanhamento. Seres mitológicos assistiam ao show, entre eles um grifo, metade leão, metade águia e, pasmem, um bigode espesso. Risos ensurdecedores e ruídos de louça quebrando quase estouravam meus tímpanos.

Passei a mão numa vassoura e pensei em iniciar uma faxina, mas dois segundos depois me vi dançando Macarena com doze anjos e doze diabinhos que usavam óculos escuros. À esquerda, no corredor do banheiro, um homem de cento e doze anos bebia vinho no bico de um garrafão de cinco litros enquanto usava uma máscara cujo rosto era metade choro e metade gargalhada.

Até hoje ainda não sei se estou acordado vivendo a maior loucura de todas, ou se morri trucidado pela tempestade e estou no saguão do juízo final aguardando para pagar os meus pecados. O fato é que este é o cenário desde que você chegou na minha vida. Tudo está do avesso, divertido e fora do lugar. 

Bem-vinda ao meu coração, mas não repare a bagunça. Desfrute.

OCTAVIUS, O GATO.
Sou um gato de bigodes que ama. Mas o que é o amor? Entre outras coisas, ele também é anônimo às vezes. E é por isso que não estou aqui para dizer coisa com coisa. Não tente me entender, tampouco me julgar. Apenas ame comigo. Miau.

QUANDO O AMOR NÃO CALA



Eu pensei diversas vezes em calar e deixar a água passar (talvez, por debaixo de algum rio), mas ela não seguiu seu caminho, parou. Assim como você também parou dentro de mim. Não sei se quem perdeu a força fui eu ou você, mas sei que ainda está aqui dentro, porque cada vez que meu coração bate mais forte sinto aquele "sopapo" que só você foi capaz de me causar.
Talvez eu esteja deixando que outras coisas tomem a responsabilidade de te tirar de mim, quando na verdade isso me cabe, mas não é fácil ter que apagar as lembranças e, por sinal, as melhores lembranças. Afinal, eu nunca mais gargalhei tão feliz como da última vez que fui com você ao parque, também pudera, você me calou com um beijo e acabamos nos desequilibrando e rolando pelo gramado, gargalhando e felizes...
Dentre tantos outros momentos, eu não consigo te calar em mim, eu te grito em silêncio e só ecoa a vontade viva de ainda te querer. Hoje esse querer pode não ser recíproco (ou sim, não sei), mas nos perdemos como grãos de areia numa tempestade de um deserto inexistente, a mesma faísca que nos incendiava foi o bastante para que tudo desmoronasse e deixarmos que isso fosse maior. Se hoje somos dois estranhos, eu não estranho meu coração por só ele ter a capacidade de te reconhecer. Se hoje eu me calo, nessa fuga de te tirar daqui, é porque o amor que nos foi dado foi retirado por nós mesmos.
É difícil amar sozinha, não se pode mesmo amar por dois e chega a ser quase impossível calar esse amor. Dói, arde, queima, dilacera e, quando parece estar ruim, se torna mais forte, mais vivo, mais presente. Convivendo com esse turbilhão dentro de mim, percebi que não é calando que vou te tirar daqui, eu preciso e vou falar pra você nem que seja pela última vez, nem que para isso eu perca a voz e você não ouse em me interromper. Só eu sei o quão difícil será essa tentativa. Agora, se você quiser só ouvir sem nada a dizer, saberei ler em seus olhos (eles nunca mentiram pra mim), mas se, por um acaso, você quiser realmente falar tudo que também não teve até hoje coragem de me dizer, meu coração vai sentir aquela sensação rasgada de quando você consegue penetrar meus sentidos e me tomar toda pra você. Será nesse momento que vamos soprar pra longe toda essa poeira que nos afastou e que abriu essa lacuna entre nós.
Era preciso força e coragem para calar e encarar a realidade, mas eu escolhi garra e vontade para resgatar nosso amor, reconstruir nossos planos mais uma vez em uma tarde no parque. Por isso, não me deixe mais calar, mesmo que numa tentativa dos teus lábios nos meus, deixe que mesmo assim meu coração possa tagarelar junto ao teu. Só teu amor que ainda me faz perder a fala...




ANNA OLIVEIRA.
Recifense, amante da tecnologia, leitura e MPB. Aspirante na escrita/poesia, uma menina mulher sempre em evolução, transcrevendo em palavras gritos oriundos do coração, deixando registros verídicos (ou não) nas entrelinhas. De braços e coação aberto para a vida e o amor.

FACEBOOK | FANPAGE | TWITTER | INSTAGRAM | INSTAGRAM PESSOAL

NÃO QUERO NINGUÉM, MEU BEM!



Feliz aquela que nos dias atuais, onde a maioria das pessoas que nos rodeiam exige que estejamos sempre com alguém no pensamento ou coração, não quer se ocupar com qualquer pessoa além de si mesma. Aquela que, independente de ouvir, por onde quer que vá, algum ser perguntando de um namorado, casinho qualquer, e até casamento, sabe dizer que não quer ninguém, e está tudo bem! 

Quanta expectativa!!! Calma aí, gente! O mundo tem muitas outras coisas pra gente fazer além de se relacionar, arranjar um amor, beijar bocas e ficar esperando um romance cheio de mensagens apaixonadas, "crisezinhas" de ciúmes ou o plano de uma viagem no verão.

É, confesso que anda complicado demais quando a pessoa é considerada um quadrado no meio de tantos círculos, simplesmente por preferir a própria companhia, sem se obrigar a ficar sempre indo de uma relação à outra pelo receio de não ser uma solteira feliz. Parece que todo mundo já nasce com um par feito meia sabe?! Mas creiam, essa coisa de ir a praia, cinema, viajar por exemplo pode ser bem produtivo, sábio, satisfatório e isento de decepções em muitos casos quando estamos sós.

As pessoas se espantam quando falamos na night, festinhas, ou nas reuniões de família a frase que intitula esse texto "Não quero ninguém, meu bem!", e porque não pode ser normal a gente gostar de se amar sem ter que ao mesmo tempo estar amando alguém?!

A gente se poupa de sofrer por afobação, imaturidade e até mesmo por idealizar o que não dá pra ser realizado por determinadas pessoas que de repente na hora errada cruzam nossa estrada.

Feliz daquela que não liga pros comentários, para as perguntas com esperadas respostas e segue acompanhada de si própria, sem deixar de esperar pelo amor, só que sem pressa, sem urgência, sem imposição. Sempre respeitando a vontade do curado coração!



JOANY TALON.
Pra quem acredita em horóscopo é Canceriana, nascida em Araruama no dia 15 de julho de 1986, assistente social pela Universidade Federal Fluminense, e agraciada por Deus pelo dom de transformar em palavras tudo que sente, autora dos livros “Cotidiano & Seus Clichês” e “Intrínseco” e co-autora no livro “Pequenices Diárias”

O CRIADO MUDO



Certa vez eu li uma crônica em que o escritor Mario Prata descrevia o desabafo indiscreto de um criado mudo  aquele móvel que fica estacionado num canto de um cômodo qualquer. Na referida crônica, o autor citava um episódio de mudança residencial em que o criado abandonou seu “status mudo” e ao cair no processo de deslocamento, escandalosamente revelou as intimidades que habitava seu interior: itens pornográficos e lembranças particulares, um tanto quanto constrangedoras. 

Aparentemente, esta inofensiva peça detêm a função decorativa e/ou acumulativa. No meu caso, a função acumulativa sempre foi adotada e a última gaveta se tornou o destino certo para esconder minha nostalgia e calar a dor sentimental que insiste em  silenciosamente  fazer um estrondo no meu peito. Todas as minhas lembranças fotográficas daqueles anos que passamos juntos foram endereçadas para aquele criado, antes mudo, agora desagradável e ensurdecedor.

Ontem ele resolveu abrir uma de suas bocas  logo a boca que me faz sofrer  , jogando na minha cara cenas de uma felicidade vencida.

Descobri de forma trágica que sentimentos bons tem prazo de validade e que a lembrança que tanto aflige é um bumerangue, que é lançado ao léu e quando menos se espera, volta com tamanha e assustadora intensidade. Lembrei das juras eternas que enfatizavam nosso relacionamento e não consegui encontrar o caminho no qual a nossa afinidade se perdeu. Cogitei a possibilidade de rasgar todas as fotos, queimar todas as cartas, destruir o maldito movelzinho, mas nossa história tem uma espécie de backup no meu cérebro, que não permite  por mais que eu queira  realizar nenhum tipo de alteração ou remoção.

Já pensei em passar diante do seu portão, feito um cachorro sem dono, e aguardar seu modo clemente me ofertar aquele colo que, de tão quente, me fazia transpirar em noites frias de inverno. Também cogitei inúmeras vezes a possibilidade de passar diante de você trajando todas as peças do meu orgulho, omitindo minha genuína tristeza e esbanjando um falso estado de superação. No entanto, tenho absoluta certeza das dores que irei sentir ao reprisar cenas de um passado, outrora mágico, hoje maligno e arrebatador.

Maldito criado mudo, abrigo das dores ocultas.

Tentei transferir o conteúdo daquela última gaveta para um cofre secreto, trancá-lo com auxílio de um cadeado sem chaves e calar na base da opressão, memórias físicas de todo meu arquivo mental. No momento exato abriu-se a primeira gaveta, revelando boleto do cartão de crédito, guia de arrecadação do IPVA e IPTU e aquela gigantesca conta telefônica, prestes a atingir a data limite de pagamento. 
 Neste instante percebi que não adianta ocultar os problemas  independente da sua intensidade, forma ou origem   , mais cedo ou mais tarde eles vem à tona. Vou apenas administra-los e mostrar ao mundo que a força da superação é o combustível que impulsiona a vontade de estar vivo.

Acho que ainda gosto muito de você, mas quer saber?! Eu me amo!


DIEGO AUGUSTO.
Mineiro de Belo Horizonte, engenheiro de produção por profissão e escritor por paixão. Amante da vida e das pessoas, acredita que os sonhos embalam a vida e o amor propulsiona os sonhos. Odeia o mais ou menos e pessoas que querem progredir cedo acordando tarde. Apreciador de cervejas e conselheiro de temas que pautam as mesas de bares.

O AMOR É BREGA.



De amor em amor, a gente vai vendo que o amor é bom, que o amor acalma, que o amor soma e que o amor é brega. Para mim, seu amor é tudo isso. Sei que não temos certeza do amanhã, mas enquanto temos o hoje, por que não se entregar? Aprendi com amores passados que se não nos entregamos de corpo e alma não aproveitamos o que estamos vivendo.

Com você, quero apenas ser. Ser eu, ser amor, ser dia, noite, cor e cheiro bom. Ser tudo o que me permitir, da forma mais intensa que conseguir. Quero ser companhia na coberta num dia frio, acompanhados de um chocolate quente. Quero ser parte de sua bagunça enquanto se lambuza de sorvete na pracinha do bairro num dia de sol escaldante.

Não quero um amor de fachada, só para as outras pessoas verem nossa felicidade. Quero um amor que seja dia quando a vida for noite, que seja calma quando tudo for furacão, que seja doce quando a vida se mostrar amarga. Um amor que se jogue e aceite uma ligação, chamando para comer no primeiro drive-thru pelo qual a gente passar, às 3 da manhã.

Sempre quis um amor que me inspire a ser cor, poesia e alegria. Um amor para quem eu possa mostrar as belezas que vejo na vida, que assista comigo ao pôr do sol na beira do mar e que entenda que cozinhar a dois é mais do que apenas cozinhar, é dividir gostos e manias, e também as louças para lavar.

Só te peço que não tenha medo de ser brega nem clichê, porque afinal, o amor faz isso com a gente. Não tenha medo de mandar flores num dia qualquer, de mandar um “eu te amo, tô com saudades” durante aquela reunião chata do meu trabalho. Não tenha medo de se entregar ao sentimento e ter vontade de gritar no meio da rua o quanto a gente tem se amado. Não tenha medo, apenas se entregue, e seja (meu) amor.




MARINA COUTO

21 anos, estudante de Letras, forrozeira e apaixonada por palavras. Escrevo pra me sentir livre, não tenho destinatário certo, acho que assim fico mais desapegada e escrevo Com a alma. Gosto de escrever para as outras pessoas saberem que não estão sozinhas. Quem vai ser meu interlocutor? Quem ler decidirá se aceita ser ou não. Se você se identificar, é um novo interlocutor, escreverei pensando que não estou só. Escreverei pra nós.
BLOG | FACEBOOK | FANPAGE | INSTAGRAM

DUAS TAÇAS


Era uma noite comum pós expediente. Duas taças de vinho seco repousavam sobre a mesa. Rodrigo pensou em tudo. Colocou o ambiente à meia luz como Luíza gostava. Não que ela fosse tímida, muito pelo contrário. Luíza era liberta dos padrões, principalmente quando o assunto era sexo. Não tinha vergonha de nenhum centímetro sequer de seu corpo. Mas a tal meia luz trazia uma sensação de descoberta e aconchego. Era a linha tênue entre o conforto da intimidade dos dois e o tesão da novidade. Rodrigo era desses homens que boa parte do público feminino idealiza. Bombado? Musculoso? Moreno, alto, bonito e sensual? Não. Rodrigo era um homem que reparava em sua parceira. Não com olhos julgadores pra medir imperfeições, mas a olhava com um tom de poesia. Admirava cada uma das curvas de sua mulher- Adorava se referir a Luíza dessa forma, não no sentido de posse, mas por sentir orgulho-.

Luíza sempre caprichava nas lingeries pra ele. E fazia em ocasiões não esperadas. Dessa vez, Rodrigo que resolveu pensar em um visual que a agradasse.Escolheu uma cueca boxer preta que contrastava com sua pele demasiadamente branca. Vestiu uma blusa social preta bem passada, calça jeans e sapatênis. Se arrumou cuidadosamente como se os dois fossem sair pra comemorar algo. Não esqueceu de colocar a dose exata de perfume, o que Luiza mais gostava -e nem era o preferido dele -. Mas hoje ela era a protagonista da noite. Ele estava decidido a agradar e não queria falhar em nenhum detalhe.

Não, Rodrigo não tinha aprontado nada e nem se sentia em débito com Luíza. Queria apenas dar tudo de si, ainda que isso nunca parecesse o bastante. Não para Luíza. Ela amava tudo que ele fazia pra ela. Desde um bilhete simples na geladeira até as viagens mais loucas que ele planejava. Mas pra ele nunca era o suficiente. Rodrigo a amava de uma forma tão rara e sublime, que queria sempre surpreender. Era praticamente um auto desafio (e ele amava desafios!) Amar Luiza já era simples demais. Ele a achava tão perfeita até no jeito de errar. Luíza era extrovertida, inteligente, amorosa, leve, mas ao mesmo tempo decidida e dona de uma personalidade forte.

Colocou na playlist a série aleatória de canções do Chico Buarque que ela adorava pra tocar na altura ideal e ainda ouvir os primeiros passos da amada ao entrar em casa. Luíza chegou como sempre de mansinho. Largou a bolsa no sofá e já sentiu o cheirinho de lasanha saindo do forno. Era sua comida preferida. Olhou Rodrigo todo arrumado, o abraçou e beijou lentamente até mesmo antes de saudá-lo. Rodrigo a segurou pela cintura com uma firmeza de quem quer sempre o mais perto possível.

Os dois prosseguiram sem dizer uma palavra. Elas eram dispensáveis diante do olhar de um para o outro. As almas conversavam ali numa sintonia doce. Luíza desabotoou com cuidado cada botão da blusa social de Rodrigo e lhe beijou o tórax demoradamente. Ele a acariciava com a barba no pescoço do jeito que ela gostava. As taças de vinho continuaram intactas sobre a e mesa. Eles as esqueceram. Era sempre assim quando estavam juntos e com os corpos entrelaçados: tudo que acontecia lá fora era um mero detalhe. É, acho que isso costuma acontecer quando um é o mundo do outro.


SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.

ELA É INTENSA



Assim que você entrou na vida dela já conseguiu perceber muitas coisas, algumas bem complexas por sinal, e a melhor delas é: ela é intensa.

Causa e chega remexendo toda a sua vida, colocando teu mundo de cabeça pra baixo, tudo em um piscar de olhos. Ela é cheia de detalhes, movimentada, agitada, linda e cheia de si. O pecado em forma de mulher. Educada, porém não pediu licença para entrar na sua vida, ela vai chegar e com o tempo você vai pedir aos céus para que ela nunca vá embora.

Rapaz, ela é daquelas de deixar qualquer homem de boca aberta apenas com uma risada contagiante, uma gargalhada gostosa ou a forma sexy que ela cruza as pernas. Fazendo um cara, como eu ou você, se apaixonar com apenas troca de olhares. Dos mais inocentes aos mais intensos. Quando menos percebe você já está coberto e envolvido nos laços e artimanhas dessa morena.

Ela não irá se importar onde vocês irão. Seja um bar ou restaurante, caminhar na praia ou dançar até o amanhecer. Ela estará contigo. Porque ela é dessas, topará esses programas, basta você tomar a atitude, basta convidar.

Conversa sobre futebol, notícias, seriados, novelas... Vai ficar enfurecida com as injustiças do mundo, comovendo-se com as tragédias que passam nos jornais e ainda discutirá sobre a falta que o juiz marcou. Quaisquer assuntos que você puder imaginar ela terá uma opinião e um bom embasamento para manter uma boa conversa ativa. Mas não qualquer conversa, um papo gostoso de levar, daqueles que não vemos a hora passar.

Estuda, trabalha e corre atrás do que quer sem depender de ninguém. Batalhadora, passa por muito sufoco, mas vence sem passar na cabeça a ideia de desistência, assim conseguindo sempre o que quer. Com todos esses atributos você pode achar que ela é muito durona, mas no interior ela é sensível e gosta de coisas que qualquer mulher gosta, como aquele abraço inesperado e um beijo na testa. Gosta de ficar em casa nos domingos, tomando chá ou chocolate quente e chorando pelos personagens de seus livros favoritos.

Se ela sorrir, peça-a para ficar, mesmo que seja pouco. Você não vai se arrepender. Pois ela é aquela que faz a conversa fluir e o tempo passar sem que perceba. Vai te chamar para tomar vinho, mas após as duas primeiras taças já estará soltando sorrisos a toa. Engana-se ao achar que ela irá para a cama contigo no primeiro encontro, muito menos no segundo ou terceiro, mas quando acontecer você se sentirá o homem mais sortudo do mundo.

Te chamará para dançar, para sair e jogar um papo fora. E em um desses dias, no meio dessa dança ela pode pedir que pares de beber ou fumar e você o fará. Pularia de asa-delta, formaria uma família com ela, escreveria romances e os leria para seus filhos e aproveitaria cada segundo e todos os detalhes da sua vida. Tudo isso porque ela te torna inteiro, ela te torna vivo. Essa mulher tem o poder de te fazer apaixonar, apenas sendo única.

Somente sendo ela.


LAYLA MOTA.
16 primaveras. Uma baixinha arretada e apaixonada por um ilustrador. Aspirante à blogueira, escritora e desenha nas horas vagas. Louca por fotografias e pôr-do-sol, cristã evangélica de corpo e alma. Coleciona sonhos, histórias e gosta de compartilhá-los com gente que gosta da gente.