DEPOIS DE VOCÊ


Depois que você foi embora, confesso que eu me desesperei um pouco. As lembranças foram se amontoando num cantinho da sala, sendo encobertas por um tanto de poeira enquanto eu remoía o passado. Me peguei chorando, olhei no espelho e vi tudo que você nunca enxergou, mas fui além: vi uma menina que eu mesma não reconheci. 

Era preciso me reerguer. Então, me reergui.

Depois que você foi embora eu mudei o sofá de lugar, troquei os tapetes e coloquei flores sob a mesa de jantar. Aprendi a dançar e a dormir sozinha no escuro. Aprendi a trocar a resistência do chuveiro e a trocar lâmpadas também. Aprendi a perder o controle, para ter boas histórias pra contar, e aprendi a enlouquecer pra me curar. Aprendi que mentiras bonitas ainda são mentiras e que remoer o passado tem um peso que não nos cabe.

Depois que você foi embora, eu enxerguei infinitas possibilidades com direito a beijos com gosto de algodão doce e abraços de dissolver angústias. Enxerguei movimentos encantadoramente sutis que transparecem bondade. Enxerguei intermináveis caminhos com direito a trilhas traçadas por pedrinhas de açúcar, não enjoa e não machuca. Só é preciso escolher qual rota seguir, em todos há começos. Lindos começos!

Depois que você foi embora, eu descobri que existe lugares bacanas, recheados de pessoas que sorriem com os olhos e que são gentis por puro gosto. Descobri que tenho poucos amigos — poucos e incansavelmente bons. Descobri que deixar claro quem sou eu, sem máscaras, não me faz chata — me faz sincera. Descobri que há infinitas formas de gostar de alguém e que é estupidez rejeitar afetos. Descobri também que borboletas quando pousam em nós, nos deixam sem fala e enfraquecem nossos joelhos. Mas tudo bem, não tem problema, nosso estômago vira ninho.

Depois que você foi embora, eu reorganizei prioridades, preenchi lacunas e descartei o peso. Ganhei o mundo, tracei metas e reescrevi as estrelinhas. Eu aprendi, descobri e experimentei um montão de coisas novas, que se eu ainda estivesse com você seriam improváveis ou até ruins. Limitar o novo é burrice e o medo de ter coragem é o maior obstáculo para seguir em frente.

Tentar esquecer o que se lembra a cada segundo demanda muito trabalho, a saudade fica insuportável quando damos atenção à ela. Devagarinho a gente vai esquecendo os socos, os arranhões, as dores e a vida vai ganhando cor conforme a gente conduz os sentimentos. Depois de você, me restou a melhor companhia que eu poderia ter: a minha.

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ANA CAROLINA DA MATA.
Ela ama comer. Tem medo de apontar para uma estrela no céu e acordar com uma verruga no dedo. E também ama comer. Acredita que troca de olhares, às vezes, são mais bem dados que beijos de cinema. Não confia em pessoas que não gostam de animais. E ama comer. Tem medo do escuro e acha normal falar sozinha. Vive no mundo da lua e adora comer por lá também. É sagitariana, paulista, teimosa, devoradora de filmes, gulosa por livros e por comida também. Mas acha tolice tudo acabar em pizza, porque com ela, acaba em texto.



CADARÇOS, BICICLETAS E MEMÓRIAS.



Quando criança, Ana não sabia fazer laço nos cadarços do tênis escolar. Era sempre seu pai que cuidava dessa parte. Se por acaso eles desatassem durante o horário da aula, era um dilema. Às vezes Ana desistia e os colocava pra dentro do tênis pra não tropeçar.

Aliás, a palavra "cadarço" foi uma das que Ana mais teve dificuldade de aprender a pronunciar. Sempre saía um "cardaço" ou até mesmo "cadastro". Ainda na pré escola, Ana ganhou um tênis com fecho de velcro, e se sentiu livre, como se todos os problemas do mundo tivessem se encerrado ali.

Outro fato curioso sobre Ana, é que ela não sabe andar de bicicleta. Até teve algumas durante a vida , mas só conseguia passear por alguns metros se elas tivessem rodinhas. Quando virou adolescente, tornou-se socialmente inconveniente que ela usasse desse auxílio. E até hoje quando alguém usa a expressão "tal coisa é como andar de bicicleta, a gente nunca esquece", ela sorri e finge entender.

Ana completou 25 anos semana passada, mas ainda dorme com vários travesseiros e pelúcias em cima da cama. Algumas são pelúcias de estimação, que ela guarda e cuida há anos. Gosta de abraçá-los, e talvez tudo fosse mais fácil se ela fizesse o mesmo com as oportunidades. Vivem dizendo que ela precisa de um amor, e que quando se casar, automaticamente essa mania vai desaparecer.

Mas não sei, acho que Ana precisa mesmo é aprender a se abraçar. A se amar. A crescer. Não em estatura. Essa é até bem avantajada. Ana tem 1,75 de altura e está acima da média nacional. Ela precisa começar a entender que na vida nem sempre podemos substituir os cadarços por fechos de velcro. Somos obrigados a encarar os problemas e resolve-los. Mas confesso que no fundo, eu tenho que concordar com Ana e até invejo sua forma inocente de ver o mundo. Afinal, é bem chato isso de brincar de gente grande, né?

SUÉLEN EMERICK.
24 anos. Brasiliense que vê poesia no cinza do concreto. Jornalista que escreve por/com amor. Uso vírgulas e crases imaginárias pra contar histórias, e o coração pra vivê-las.



SEJA PARTE DA MINHA LOUCURA


Vi você chegar, se aconchegar num cantinho, roubar um sorriso bobo sem qualquer intenção e nem percebi quando comecei a te querer cada vez mais perto. Você que com esse seu jeito de agir meio torto, sua forma de ver o mundo distorcido de opiniões alheias e essa maneira de se apegar aos detalhes, fez com que eu reparasse justamente naquilo que deveria deixar passar. Não são esses teus olhos com um brilho diferente, muito menos tua mania de estalar os dedos ou teu jeito de desarrumar o cabelo, para ser sincera nem percebi direito o que me fez te perceber.

Pensando bem eu adoraria dizer que não prestei atenção em nenhuma linha de expressão no seu rosto e muito menos naquela curvinha bonita do seu sorriso. É sério, adoraria dizer que não pensei em você hoje, nem ontem ou que talvez tenha pensado somente na semana passada, mas não vejo a hora de sair daqui e te levar na bagagem da minha loucura. Não sei se você sabe, mas embora não aparente tanto, sou um poço de confusão e insanidade e olha só onde você se meteu. Pense bem, ainda dá tempo de fugir, porém eu, se fosse você, ficaria.

Ficaria para eu poder te puxar pela mão à beira-mar, te levar olhar a lua numa imensidão de tons de azul que desanda no horizonte e depois encarar as ondas mornas do anoitecer sem preocupações. Sabe, eu, se fosse você, ficaria porque não é todo dia que se encontra alguém querendo sentir a vida num misto de coragem e covardia. Ficaria para estacionar o carro na beira de um rio só para ouvir o barulho da correnteza virar melodia numa noite fria, para compartilhar o aquecer de uma pequena fogueira crepitando sob a luz de um céu estrelado e dormir em pleno inverno com uma coberta suave ou a preferência por um calor humano entre os desconfortos de uma cama ao relento improvisada.

Não é como se eu quisesse uma vida inteira do seu lado e sim só algum tempo, acho que apenas o suficiente para nos tornar inesquecíveis. O suficiente para ter algo bom para lembrar da gente, algo do qual não beire as linhas do esquecimento ao passar dos anos. Gosto de você e por esse motivo acho as coisas costumeiras tão sem sal para nós dois, contigo eu quero um pouco mais de insanidade, consegue entender? Não quero que seja doce, nem que dure até o fim dos fins, quero apenas que permaneça a essência de uma saudade boa de ser lembrada, de um sentir falta gerador de uma bela insônia de vez em quando.

Quero que você fique agora, que permaneça no meu abraço, que brinque com meu cabelo, me arrepie o pescoço com sua respiração entrecortada e deslize sua mão gelada pelas minhas costas, que me beije com calma e que vez ou outra entre na minha brincadeira de provocar e me provoque. Eu te quero aqui, hoje, só um pouquinho. Não te peço todo seu eu, nem que me conte suas frustrações, só divida comigo aquilo que te fizer bem e dividiremos de um bem maior em conjunto. Quero saber tuas vontades doidas e se possível fazer com que elas aconteçam, quero ter o que lembrar e quero que seja ao teu lado por um momento. Só te peço que seja parte da minha loucura e eu serei, com toda a certeza parte da sua.


GABRIELLE ROVEDA.
1997. Escritora de gaveta, bailarina por paixão, sonhadora sem os pés no chão e modelo só por diversão. Do tipo que vive mais de mil histórias pelas páginas dos livros, daquelas que quer viajar o mundo só com uma mochila nas costas, do tipo que acredita no amor a todo custo e dispensa de imediato pessoas sem riso fácil. Não sabe fazer nada direito, mas insiste em acreditar que o impossível é só uma daquelas palavras que vão cair em desuso e se vê tentada a tentar de tudo. Viciada em café e em escrever cafonices sobre si e o amor sem dizer nada ao certo.

Eu tenho medo de amar, mas você até que tem chances comigo


Vai entrando pela porta, meu amor, mas não entenda que por entrar aqui vai rolar a bagunça que quiser. Eu já deixei que entrassem por essa mesma porta e a sensação que tive foi que pularam a janela e a deixaram aberta e eu fiquei ali de pé e rodeada pela bagunça deixada e congelando por um vento frio que nunca ia embora. Por isso mesmo vedei as janelas e tranquei a porta com chave, tranca interna e ferrolho, pra ninguém se atrever a tentar entrar.

Você me deu vontade de abrir a cortina e me disse que eu era linda. Me disse que eu era generosa, inteligente e de bom coração. Acho que vale a pena tentar. Porque sabe como é, nunca me trataram tão bem e eu não estou acostumada com esse tipo de mordomia. Eu preciso é que você me ajude a não achar tudo isso demais ou que eu não mereço isso. Eu sei que se tem algo que eu mereço é ser feliz e vai ser muito bonito se você fizer parte da minha felicidade atual.

E quando for se acomodando, diz logo o que te deixa confortável e o oposto também. Eu tô aqui disposta a me encaixar no seu mundo, assim como vou te dar as coordenadas pra dar conta do meu. Te deixo ficar do meu lado do sofá, sujar meu lençol (comigo), beber café na minha xícara e dizer coisas no meu ouvido.

Eu te disse que eu era problemática, que tinha medos e que pecava pelos excessos e pela falta. Mas eu esqueci que isso é coisa do ser humano e que estamos aí para aprender com os erros.
Você me disse pra ser paciente, pra pensar bem se era isso mesmo que eu queria e eu estou confiante pela primeira vez que estar com alguém me deixa feliz e é recíproco. Sorrir com você, olhar nos seus olhos e te abraçar já fazem o meu dia valer a pena.

Parece até que você é um tipo diferente de pessoa. Porque ninguém estava valendo a pena até então.
Entra, faz pouca bagunça e ajeita as suas trouxinhas no seu canto do guarda-roupa. A casa é sua, meu amor.


JU UMBELINO.
Mineira que escreve para mandar a ansiedade embora. Viciada em seriados, filmes e música. Ama quadrinhos e livros. Prefere ficar em casa do que ir pra balada.

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E ASSIM NASCEU O MEU AMOR

Eu te amei quando tu desocupou a cadeira ao teu lado para que eu sentasse. Foi um gesto delicado, sutil, quase imperceptível, mas de quem queria que eu estivesse ali. Acomodei o meu corpo despojado e conversei abertamente sobre a vida como quem não tem nada para fazer numa segunda-feira à tarde. Entrei na tua vida e não saí nunca mais.

Eu te amei quando contou um segredo só pra mim e a mais ninguém. Um detalhe particular da tua vida, um gesto de confiança inigualável que fez com que eu me sentisse o homem mais importante do mundo naquela hora, cuja opinião realmente tinha um peso capaz de desanuviar as tuas dúvidas. Confiei em ti e não desacreditei nunca mais.

Eu te amei quando, no meio de tanta gente, tu mirou o meu copo e brindou comigo. Sorriu para mim como se eu fosse o único entre todos, fitou o meu olhar como quem sabe exatamente a atenção que quer. O charme daquela tarde fez meu coração pulsar como a bateria de um carro velho há muito tempo desligado. Foi a faísca que bateu o arranque e não desligou nunca mais.

Eu te amei quando ganhei um abraço inesperado, especial e diferente. Teus braços entrelaçados no meu pescoço e a aproximação de nossos corpos com aquele disfarce de amizade misturado à ansiedade do bem-querer. Senti o teu corpo esguio tocando levemente o meu e teu perfume tomou conta daquela atmosfera particular que criamos, só os dois, e ninguém percebeu. Fiquei envolvido e não desprendi nunca mais.

Eu te amei no primeiro beijo. No olhar que o antecedeu. No teu sorriso de moleca regado a vinho, na displicência dos teus movimentos que davam a certeza de querer exatamente estar ali comigo. Naquela hora, o relógio parou e nunca mais vi o tempo passar ao teu lado. Te quis dali em diante para não parar de querer nunca mais.

Eu te amei quando tu me chamou aos prantos pedindo socorro. Lembrou de mim como porto seguro e acreditou que eu era o cara certo para solucionar todos os teus problemas. Fiquei ao teu lado, tentei dizer as palavras exatas, desliguei de todo o resto e quis somente ser teu naquela hora. Passei a ser teu, só teu, e de ninguém mais.

Eu te amei quando te vi acreditar em mim ao passo que todos os demais já haviam desistido. Recebi teus conselhos, baixei a guarda, deixei de lado a teimosia. Resolvi mudar por não querer mais ser o mesmo turrão, porque teus carinhos adoçaram a minha amargura e devolveram a esperança ao meu coração cansado. Que agora pulsa enormemente e não quer parar jamais.

Eu te amei e tenho te amado o tempo todo. Como sempre quis e achei que não mais pudesse, que não mais tivesse condições. Tu me devolveu a chance de amar e a ti entrego o que de mais genuíno há em mim por entender que este é um sentimento único e que dificilmente se repete. Me reinventei, me amei outra vez e por conta disso permito que agora tu sejas a dona do meu coração. Entrego ele a ti e te peço: não o devolva nunca mais.

PS: lembrem-se, amigos, que o amor não conjuga verbos. Escrevi errado porque fica mais bonito e porque sou apenas um gato. Um gato que ama.

OCTAVIUS, O GATO
Sou um gato de bigodes que ama. Mas o que é o amor? Entre outras coisas, ele também é anônimo às vezes. E é por isso que não estou aqui para dizer coisa com coisa. Não tente me entender, tampouco me julgar. Apenas ame comigo. Miau!

PERMITA-SE SER SINCERA


Acordei com vontade de faltar no trabalho e me entregar aos teus braços. Dane-se o universo, se eu poderia ter um coração para morar, olhos para admirar e boca para me perder, pra que viver nesse mundo que só sabe me reter? Eu poderia bater na sua porta, ou já ir entrando e descobrir que você ainda não acordou, deitar ao teu lado e ficar lá até o anoitecer.

Me esquecer de trabalhar, comer ou ligar o celular. Me esquecer de levantar ou respirar, porque você tira o meu ar e faz-me querer desligar do mundo só pra deliciar o sabor da tua companhia.

Acordei com vontade de tomar um café, sentar em um lugar qualquer e desfrutar da sensação de olhar teus olhos e conversar. Conversar sobre o tempo, a vida, música, filme, pessoas ou apenas manter o silêncio e sorrir ao perceber que nossos olhares se cruzam a cada gole.

Acordei com vontade de ser aquele casal feliz. Que não tinha um universo de coisas para enfrentar ou obstáculos para superar, que não tinham tomado rumos diferentes ou tomado decisões inconsequentes.

Queria acordar e ver que ainda é primavera, as flores cresceram e se encaixaram num buquê destinado a mim e que pra retribuir, meu coração destinou-se a você . Ou que é sábado, você ainda dorme, eu te olho franzir a testa como se o sonho não estivesse bom e faço cafuné pra afugentar o pesadelo, você sorri e volta a dormir.

Fazendo-me aconchegar mais pertinho dos teus braços até você me envolver neles e dormir. Porque ainda tá cedo, a gente pode dormir até mais tarde.

Ainda tá cedo, mas o tempo passa voando meu amor. Enquanto ele passa, eu passo a ser sincera em dizer que quero a primavera, você, mais e mais tempo. Pra dar tempo de viver, sem deixar de desfrutar cada sabor do seu amor.

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ARIANE MOURA
Estudante de Psicologia, por amor . Uma escritora amadora que escreve mais pra si do que para os outros. Sonha que um dia ouvirá "Ariane Moura? Aquela Psicóloga e Escritora? Sei!". Alguém que tem paixão ao que faz e ao que quer, e com isso, um dia, conquistará o mundo.

MAIS UMA DOSE, POR FAVOR!


Já são 7:30 da manhã e eu ainda não tive forças pra sair da cama, sinto que vou me atrasar, mas é quinta-feira, não tenho a desculpa de segunda, e não tenho como me abdicar das responsabilidades de adulta pra curtir os melodramas adolescentes que me perseguem desde a primeira desilusão amorosa.

Como não tem jeito, encaro um banho apressado, ignoro a dúvida do clima pra escolher a roupa da labuta e depois de uma xícara de café também feito na pressa, sigo. São apenas dez horas de uma rotina nada previsível e que cada dia que passa percebo que sou abençoada por fazer o que gosto, e apesar das aventuras termino o dia com a cabeça cheia e o coração feliz. Afinal, estou empregada, fato que é tão difícil nos dias atuais!

Sabe aqueles melodramas que falei a pouco, me esperaram sair do trabalho e me fazem novamente companhia?! Aqui estou, caminhando agora bem devagar pela cidade no caminho pra casa, mas não quero voltar pra lá. Tá tudo tão frio, calado, silencioso, cheio de lembranças boas e ruins! Enquanto paro num ponto qualquer e repenso meu trajeto observo tantos carros, pessoas, vidas inteiras inventadas por mim na tentativa de realizar algum sonho inconsciente criado ainda nos meus 12 ou 13 anos.

Amanhã é feriado, sem dia útil eu serei obrigada a preencher meu dia com algum programa brega, inusitado ou jovial e animado com os amigos, talvez até sozinha na menos pretensiosa opção. Atravesso a avenida e me permito conhecer um dos “points” tão comentados pelos conhecidos mais baladeiros da minha convivência, me acomodo no canto mais discreto do bar e analiso o cardápio como quem admira um barquinho desaparecendo no horizonte, a primeira pedida pode ser uma vodka pura e com gelo pra ver se esfrio a cabeça e acalmo o coração.

— Garçom, por favor!

A cidade já está mais povoada que o normal, me vejo abismada! Muita gente aproveita o feriado prolongado digo a mim mesma em pensamento, reparo as roupas das meninas, os casais sorrindo gratuitamente, mal educadamente ouço conversas de mesas próximas e completo mentalmente todo fim de noite e de histórias que decidi acompanhar.

Já na sexta dose da mesma bebida, nada está como antes! Eu dependo de alguém pra contar meus tormentos sentimentais, minhas faltas e as saudades que ainda nem senti, dos tocos tomados, das oportunidades perdidas e de tudo que não quis ganhar por medo de perder, o que nem era meu em alguma fase da vida.

Chamo o garçom de todas as doses, pago a conta e pacientemente entro num táxi que me leva de volta pra um mundo que só eu visito e não faço nenhuma força pra melhorar, insisto em reclamar e não deixo ninguém mais entrar. Ali acabo minha quinta-feira, bem cedo me deito e adormeço, com a ajuda alcoólica da vodka que me embalou suavemente até uma sexta-feira vazia e cheia de fatos desnecessários, que não faço o mínimo esforço de desapegar.

JOANY TALON
Pra quem acredita em horóscopo é Canceriana, nascida em Araruama no dia 15 de julho de 1986, assistente social pela Universidade Federal Fluminense, e agraciada por Deus pelo dom de transformar em palavras tudo que sente, autora dos livros “Cotidiano & Seus Clichês” e “Intrínseco” e co-autora no livro “Pequenices Diárias”.

JOGOS DE AMOR: O MATA MATA DA NOSSA GERAÇÃO


No jogo do amor, qual é o seu placar? Está com vantagem, no zero a zero, ou já tomou um 7x1? No jogo do amor que você resolveu jogar, quais são as regras? Quem é que apita? Tá na ofensiva ou prefere jogar na retranca? Seja qual for a resposta, pare agora mesmo. Saia do campo, abandone a partida. Deixe que considerem um W.O. Pendure a chuteira e sente no vestiário que eu tenho coisas pra te contar.

Você precisa saber: jogos de amor não são pra se jogar.

Não há jogo mais fadado ao fracasso do que esse. Não há jogo com tantos blefes e tantas contusões. Quem se sujeita a jogá-lo pode até marcar ponto, mas nunca vai sair campeão na vida. O amor de verdade não tolera encenação, não aceita truques, não gosta de dribles.

Ações como “esperar duas horas para responder uma mensagem”, “fingir que vai sair no fim de semana só para parecer ocupada” e “nunca mandar a primeira mensagem” são erros graves. Então, eu te autorizo agora a dar um cartão vermelho para qualquer pessoa que te incentive a fazer isso.

Vou repetir uma coisa que já disse : Parem de achar que indisponibilidade é item afrodisíaco. Gente que não tem tempo pra sair, bater papo, tomar cerveja e depois dar uns bons beijos são chatas pra caramba. São aquelas pessoas que não passam pela vida, apenas vivem esperando a vida passar. Sem feitos. Sem marcas.

O amor não é um jogo, mas um exercício. Então começa praticando sendo verdadeira com você mesma. Sabe aquele lance de treinar na frente do espelho antes de conversar com alguém? Pois bem, é isso. Conte a você mesma quais são seus verdadeiros desejos, em alto e bom som. Vale treinar quantas vezes for preciso até que você esteja pronta pra contar para o outro. Mas não corte essa cena da sua história. Não deixe essa página em branco.

A regra é clara: Quem está afim, marca presença. Então parem de demonstrar o contrário, porque nós já conseguimos ir até a Lua, mas ainda não temos bola de cristal. Certo? O mesmo vale para a outra pessoa.

Tá sempre cansado, cheio de trabalho ou tem aniversário da avó todo o dia? Manda passear, porque está te cozinhando, e até onde sei, meu bem, aqui ninguém quer viver em banho maria. No amor, quem vence é a vontade, a persistência. Não há espaço pra indiferença.

Se o amor não é um jogo, não aceite ser reserva.

E se for pra praticar o mata mata, que não seja o que há de mais precioso dentro de nós. Vamos começar eliminando os que têm medo do risco, os que sufocam os próprios sentimentos e os sentidos alheios. Vamos eliminar os que mentem por medo de dizer a verdade, os que alimentam esperanças covardemente só pra alimentarem seus próprios egos.

De agora em diante, fica decidido: O amor é uma corrida. Respira e vai.

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ANA CAROLINA SOUZA
Jornalista por indução do destino, são paulina por carma. Apaixonada por gatos, praia, livros, carnaval, coca cola e umas delícias a mais. Aquariana com ascendente em áries. Tia babona. Mulher forte e chorona. Menina boba, dessas que escreve para não explodir e ainda acredita no amor.

AMOR NÃO É MERCADO E PESSOAS NÃO SÃO PRODUTOS


A cada dia que passa cresce o percentual de pessoas (homens ou mulheres) que sobe o muro das lamentações com o já conhecido tema: tá difícil conquistar alguém que esteja à altura dos meus anseios. Bom, diferente das relações afetivas estabelecidas em épocas passadas - onde casamentos eram “comercializados”, irmãos eram vigilantes de mão boba e, praticar um beijo, era mais complexo que calcular a resistência dos materiais - hoje o mundo vive a supremacia da liberdade de escolha.

Assim como ocorre nas seletivas de emprego, as pessoas estão cada vez mais exigentes e não hesitam em optar pela “melhor e mais assertiva” opção. Não raramente escutamos a ala feminina dizer: “ai amiga, ele até que é gostoso, bonito e extrovertido, mas... não estuda!” enquanto isso, homens da mesa ao lado lamentam: “poxa velho, ela é gata e gente boa, mas... é muito rodada”. Não seja exigente em demasia e deixe seu critério de seleção imperar sobre decisões gastronômicas (com glúten ou sem?! Açúcar ou adoçante?! Amargo ou doce?!). Pessoa ideal não possui manual de instrução, rótulo ou bula.

Me escuta aqui, enquanto se tem a falsa impressão de estar escolhendo (ou esperando) o melhor, você deixa de aproveitar momentos incríveis e conhecer pessoas fantásticas. Se for preciso quebrar a cara, vá em frente, mas, nunca – de forma alguma - volte pra casa com o sabor amargo do desejo reprimido. Não estou dizendo pra você sair por aí como degustador(a) de seres humanos e levantar uma placa com os dizeres: “Pode vir que eu tô 'facinho”, mas vale a pena se permitir. Ninguém é igual a ninguém, portanto pare de buscar a personificação do(a) ex em tudo. Passe a encarar alguns defeitos como qualidades exóticas e viva a plenitude das descobertas.

Pessoa ideal será aquela que estiver disposta a te fazer feliz custe o que custar, que respeite suas diferenças e saiba explorar a mina onde estão guardados seus melhores sorrisos. Pessoa esta que não te exiba como troféu, no entanto, reconheça o trunfo que é estar ao seu lado. Pessoa que saiba reconhecer o dia em que você esteja afim de ensurdecer ao som da sua particularidade, no mais profundo silêncio.

A humanidade está muito ocupada amando currículos, mas se esquece que amor não é um concurso. Amar é apontar todas as armas para a felicidade e acertar em cheio o alvo, buscando de forma bilateral alcançar o sentimento único. É deitar pensando, dormir sonhando e despertar imaginando a projeção das inúmeras possibilidades de percorrer juntos a rota da plenitude – composta por lombadas da dificuldade, curva acentuada da divergência e intriga dos atalhos.

Sim! O caminho pode não ser uma pacata reta envolto por flores, contudo vale a pena seguir, pois só vive intensamente aqueles que morrem de amor.

Nesta vida estamos, a todo instante, sofrendo julgamento quanto as nossas atitudes. Somos reprovados por pensar diferente deste ou daquele indivíduo, mas, afinal, quem está certo? Se a sua opção for realmente flertar com a solidão e fechar as portas de toda e qualquer investida alheia, fique à vontade! Só não deixe que sua vida seja definida em virtude daquilo que a sociedade espera a seu respeito.

DIEGO AUGUSTO
Mineiro de Belo Horizonte, engenheiro de produção por profissão e escritor por paixão. Amante da vida e das pessoas, acredita que os sonhos embalam a vida e o amor propulsiona os sonhos. Odeia o mais ou menos e pessoas que querem progredir cedo acordando tarde. Apreciador de cervejas e conselheiro de temas que pautam as mesas de bares.


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UM ENCONTRO DE ALMAS


Jurei que não amaria novamente, mas um encontro de almas mudou tudo, te encontrar mudou minha vida da água para o vinho, de uma simples carona para deliciosas noites de amor, de um simples aperto de mão para afagos no coração. Minha mente pedia um pouco mais de calma, o meu coração parecia não ouvir. Senti um misto de medo e euforia, grilos na mente e borboletas no estômago.

Como quem não quer nada, eu exalei novamente o que já não sentia mais ou que por um momento eu ocultei. E eu não podia ocultar de novo, eu não podia deixar que o meu passado viesse à tona, me jogasse na lona e me desse um nocaute. Não, não era justo comigo, não era justo com você, eu não depositar em você os meus traumas, não era justo te culpar pelos erros dos outros.

Eu não podia atropelar o meu destino, vê-lo passar por mim “sorrindo” e enxergar mais uma vez a solidão pra mim se exibindo. E não fiz, assumi as rédeas, era nosso o papel principal. Era o nosso encontro de almas, provando o quanto é linda esse viagem de embarcar nas mesmas sensações e de sentir conexões surpreendentes.

Eu contava os segundos, os minutos, as horas para te ver, o meu coração palpitava vigorosamente. Te encontrar era desembarcar no cais da tua alma, era quebrar todas as juras feitas, fazer novas juras, olhar para frente e enxergar infinitas noites ao teu lado, bebendo deliciosas doses de vinho. Era dançar no mesmo compasso, ao som Engenheiros do Hawaii, Zé Ramalho e Zeca Baleiro, era sentir na pele os toques, os arrepios causados pelas palavras, ver os olhares que se cruzavam avidamente.

Te encontrar era lavar minha alma, eu ia nua, livre de qualquer amarra, livre de qualquer medo e angústia. Ia transparente, sem ter hora pra voltar, disposta a viver tudo que a vida me proporcionava. Te encontrar com um sorriso leve, sem pressa e sem preocupação era um ponto de equilíbrio.

Com você aprendi a ter mais calma, aprendi a ser mais otimista, aprendi a dar as mais lindas e loucas gargalhadas, aprendi a não ligar para o que não me acrescenta. Aprendi a tomar banho frio e aprendi a cuidar mais de mim, a dar mais valor para a vida que tenho. Ao te encontrar somos rios que se encontram, mares que transbordam, somos longos encontros de almas, almas ligadas numa “Perfeita Simetria”, somos olhares que falam, que transparecem todos os desejos.

Temos vivido momentos inesquecíveis, temos aproveitado imensamente, temos amado loucamente. O tempo com toda sua sabedoria tem deixado nossa ligação de almas permanecer. Ainda que novos ventos soprem e que mudanças aconteçam, essa ligação ficará gravada em mim, como prova das sensações, das magias, dos encantos mais lindos que já vivi.

KAL LIMA
Poetisa, uma baiana com a alma no mundo e os pés em um rincão incrustado no Sertão. Sou uma garota-mulher apaixonada pelos encantos que o amor traz. Falo muito, sinto muito, nas palavras encontro o meu cais, é o meu jeito de transbordar.


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CLOZAPINA




Depois de um cigarro soprado pela janela volto a cama totalmente desarrumada por nós.
O cheiro de vergonha nos inebria.

A respiração pesada e o suor acusam sua situação. Você está rendida. Você teve o que quis. Você foi desejava e tratada como objeto de desejo. Você se sentiu um objeto. E você queria se sentir assim.

Sexo.

Os chatos te julgarão. Quem conhece a beleza não.

Não sobra muito a aquele que é vazio além da crítica. Quem sempre será feio nunca aceitará o belo.

Quem não sentiu acha que é pecado ser feliz.

Enquanto planejam um modo de nos sabotar damos goles e beijos. Tragos e vícios. Tudo que dizem ser incorreto. Tudo que nos faz sentir vivos.

Eu, você e todas formas de pecar.

Eles, o mundo e todas maneiras de justificar seus fracassos.

E nós não temos tempo para pensar no que eles acham ser o correto. Já sabemos que isso não existe. O que importa é ser feliz.

E enquanto quem não sabe tenta encontrar o termo certo e a maneira certa de chamar as coisas nós fodemos.

HELIARLY RIOS
É um amante. De política, economia e futebol. É um apaixonado por F1 e NFL. Garante o pão de cada dia e um teto para descansar trabalhando como analista contábil. Seu único amor é escrever de forma irresponsável e livre de culpa. O resto são paixões.

AMAR CONFUNDE

Eu tinha vinte anos quando tomei a primeira grande decisão que revolucionaria minha vida. Pensei estar dando a grande cartada e definindo eternamente os rumos que seguiria dali em diante. A gente sempre tem essa tendência de imaginar que grandes guinadas são eternas. Pus em prática. Durou exatos sete meses e tive que voltar à estaca zero.

Dei algumas voltas na vida e cheguei aos vinte e cinco. Decidi casar. Agora sim, ces’tfini, tudo está dito e feito. Disse sim ao padre e jogaram arroz no meu cabelo engomado de gel (relendo essa frase vejo que parece que casei com o sacerdote, mas não. Ah, vocês entenderam). A vida a dois, naturalmente, sofre mutações em seus sentimentos, mas a gente sempre pensa – ou tem a intenção de pensar – que é para sempre, quando na verdade o certo é ser infinito enquanto durar. Os poetas e os pagodeiros não erram.

Cruzei então a barreira dos trinta. Oi, Balzac. O que pode acontecer na vida de um homem de três décadas, estável e equilibrado emocionalmente? Na minha, julgava que nada. Com o passar do tempo, assimilei a ideia de que os acontecimentos estão aí para modelar o que sentimos e, uma vez petrificado, não há água mole que tanto bata no coração até que fure. E, de mais a mais, a estabilidade de um casamento sem fortes emoções pode não ser lá muito animadora, mas estamos cansados de conhecer pessoas que preferem mil vezes as voltas de um carrossel a terem que morrer berrando na efusão de uma montanha-russa.

Pois bem, sem mais nem menos a pedreira explodiu com toda a força. Dinamite pura. Não restou pedra sobre pedra. E eu, que já nem lembrava mais de como era pulsar de nervoso por causa de alguém, passei a ter taquicardia, sudorese nas mãos e uma angústia que não apertava o peito há praticamente dez anos.

O mais curioso disso tudo vocês nem sabem: eu gostei de sentir isso. Adorei me sentir vivo outra vez e fiquei mais feliz ainda ao constatar que meu empoeirado coração seria sim capaz de amar novamente. Cerrei os olhos, permiti que os pés saíssem do chão e deixei que o embalo desse sentimento passasse a governar os meus melhores e piores momentos.

Tem sido revigorante, claro que tem. Mas não há amor sem sofrimento e não há escolha sem renúncia. Quem perde as rédeas das suas emoções fica à mercê dos altos e baixos da supracitada montanha-russa e, meus amigos, os momentos de frenesi passam a flertar com os de desespero. A cada curva, a impossibilidade de adivinhar o que virá a seguir impede que saibamos o que vamos ou não sentir. É doido, é adrenalina, mas é tenso.

O mais irônico é que, no fim das contas, a ordem dos fatores não alterao produto. E eu, que não sabia de onde vinha e para onde iria, tampouco agora sei onde estou. Amar é, de qualquer forma, um tiro no pé. A gente apenas escolhe se vai ser com pistolinha de chumbo, ou com bala de canhão. Neste exato momento, estou usando lança-chamas. Arde e não se vê. Fernando Pessoa sabia das coisas. Morreu jovem. Eis o busílis.

OCTAVIUS, O GATO
Sou um gato de bigodes que ama. Mas o que é o amor? Entre outras coisas, ele também é anônimo às vezes. E é por isso que não estou aqui para dizer coisa com coisa. Não tente me entender, tampouco me julgar. Apenas ame comigo. Miau!