CALADIUM


Uma sanja por brigas é louvável. Você só não precisa querer controlar os danos. Eles precisam acontecer.

Eu, assim como você, adorava brigar, juro, mas já perdi o tesão. O meu ímpeto foi embora com a idade ou com a experiência. Não sei afirmar. Mas não é como já foi.

No seu terceiro ou quarto relacionamento você quer um pouco mais de paz e menos furor. Você procura alento para o espírito já fustigado pelo desejo. A essa altura os pormenores são apenas isso.

Você está vivendo sua segunda paixão, querendo manter as coisas por perto, não perder o controle dos acontecimentos e por isso não aceita o erro, a falha.

Mas é no que você pretende controlar que está o que você precisa enxergar para poder aprender.

Só que esse aprendizado será o mais triste de todos, porque com o tempo e as experiências não aprendemos a amar mais, aprendemos a nos tornar mais indiferentes.

Nosso coração arrefece. Por esse motivo inventamos mil mentiras para, quem sabe, nos convencer que ainda somos como imaginávamos ser.

Mas nem tudo é sombrio. Nessas horas podemos sempre contar com a traição da nossa própria memória. Ela mentirá para acalentar o nosso coração.


HELIARLY RIOS.
É um amante. De política, economia e futebol. É um apaixonado por F1 e NFL. Garante o pão de cada dia e um teto para descansar trabalhando como analista contábil. Seu único amor é escrever de forma irresponsável e livre de culpa. O resto são paixões.

TÔ TE ESCREVENDO



Tô te escrevendo porque acabei de emprestar aquele livro que você me deu e que disse que jamais o emprestaria. Tô te escrevendo porque quando decidi emprestá-lo, eu imediatamente pensei “HAHA eu esqueci você” e exatamente agora eu tô ignorando o fato de ter sido super resistente e a pessoa praticamente ter implorado pelo livro.

Tô te escrevendo porque lembrei de você esses dias quando ouvi aquela música da Marisa Monte que você amava e acabei tentando sair pela porta errada do ônibus do mesmo jeito que você saiu da minha vida. Todo errado, meio perdido e bagunçado. Seguindo na direção oposta pra onde a minha bússola apontava.

Tô te escrevendo porque assisti um documentário sobre alienígenas e atribui toda a culpa pelo seu sumiço da minha vida a eles. Foi isso. Você foi abduzido. E eu não tenho o que fazer. Agora está tudo explicado. Ou pelo menos vai ficar explicado até eu assistir algum documentário que fale sobre moléculas que vibram tanto a ponto de sumir no espaço-tempo e eu começar a achar que você, agora, vive em uma realidade alternativa onde eu não estou.

Tô te escrevendo porque lembrei daquela carta que você deixou dizendo que eu mudei a sua vida mas que você precisava ir pra construir alguma coisa que eu não memorizei só porque achei que não me interessava nada seu que também não fosse meu. Sei que você acha egoísmo essa coisa de só amar inteiramente a pessoa enquanto ela está na sua vida... Mas é que eu não sei ser assim tão bom como você é.

Hoje, eu tô te escrevendo porque mesmo querendo que você fique aí, com a sua nova vida incrível e toda linda sem mim. Eu também quero que você volte. Quero mesmo. Quero que você volte e me ensine a não chorar a toa. Me ensina a sentir menos só pra também doer menos. Volta, e me ensina a ser mais como você pra eu amar a mim mesmo como você ama você e como eu também amo você. Me ensina a crescer e a viver, pra um dia talvez eu florescer assim como você. Vem e me tira dessa caixinha que meu mundo é, só pra eu parar de lamentar que meu mundo é vazio e apertado sem você. Volta, que eu aceito. Ou me leva, que eu vou.

Tô te escrevendo porque acabei de ouvir a sua risada e fui correndo abrir a porta.
Tô te escrevendo pra dizer que queria esquecer você.
Só que ainda não esqueci.



BRUNO FIGUEREDO
Poeta e Escritor. Capricorniano com ascendente em Paulo Leminski e lua em Tati Bernardi. Fã de ficção cientifica e de romances clichês. Dono do pseudônimo @sujeitoeu. Escrevo, mas escrevo sobre mim, e nem sempre sou só amor..

O TEMPO E EU

argenta

O mundo estava acordando. Era um novo dia, mas pra mim ainda era ontem. Me recusava a aceitar a virada quando ainda não tinha ido dormir, mesmo que o relógio tivesse razão. Eu o olhava. Ele me olhava. Amanhecia e fazia frio. O calendário marcava sábado. Eu ainda vivia a sexta-feira. Por algum motivo me agarrei a isso. Enquanto eu não dormisse o tempo se congelaria? Eu sabia que não e o sono já me cutucava as costas sem a menor das delicadezas.

Só que considerando que ele mesmo, o tempo, vinha sendo meu maior inimigo nos últimos tempos, ficar acordada parecia uma vitória. Eu não envelheceria. Sem rugas. Sem cabelos brancos. Sem responsabilidades. Sem decisões importantes a tomar. Sem futuras decepções. Sem fracassos. Sem lidar com a necessidade de amadurecer a força.

Tudo estava perfeito. Eu só precisava me manter acordada. Simples assim. Fácil assim. Olhei para as horas marcadas no cantinho do computador e revirei os olhos. Isso não significaria absolutamente nada de agora em diante.

Levantei. Fiz um café. Dei bom dia pro sol. Comecei a refletir como perdíamos uma infinidade de coisas por sermos limitados por coisas que não podíamos mudar. Se eu não precisasse dessas malditas oito horinhas de sono, escreveria muito mais, viveria muito mais.

Mas, como uma boa pessoa preguiçosa, além das oito horas básicas eu durmo mais uma eternidade. Ok, culpa minha. Pode me algemar. Não sou inocente. Como já fiz antes — e como muitos fazem — coloquei a culpa em outro.

O tempo não tem tanta culpa. É claro que, pra mim, às vezes, ele agride. Passa mais rápido do que eu gostaria e isso me gela o estômago. Acredito que, com o passar dos anos, nos daremos bem e eu já não o olhe torto, já não lute tanto, talvez sejamos até amigos. Um cerveja, um café, um sorriso.

Quem sabe ele seja bonzinho, colabore comigo e não seja mais tão apressado. Mas ele tem sido duro hoje, como nos outros dias, e eu perco a batalha. Me jogo na cama, fecho os olhos, durmo. Boa noite, nos vemos daqui 14 horas.


TATIANE ARGENTA.
20 anos, paulista. Escritora de bar e cafézinho, romântica incorrigível que tem tanto medo do futuro quanto você. Inúmeras incertezas e conflitos no peito como qualquer um, mas que sabe por isso no papel. Assim como outros sabem cantar.

SEU CORPO É O PAÍS DAS MARAVILHAS



Mais uma vez eu acordei no meio da madrugada. A culpa? Com certeza é todinha dela! Ela rebate, dizendo que não fez nada e que a culpa é minha por pensar de mais nela. Tá, pode até ser verdade, mas a culpa é dela e fim de papo. Não é uma reclamação, longe disso. É um agradecimento por toda a inspiração que ela me dá.

Um dia desses a gente estava conversando e eu lembrei que ela ama livros. Quando senta de frente pra sua estante, se sente a própria Alice no País das Maravilhas. Vai viajando em cada conto, em cada história. Abre, sente o cheiro do livro, a textura das páginas e vai relembrando de momentos e memórias.

Se for reparar bem, além dos cabelos dourados que eu adoro, principalmente quando fico enrolando eles nos dedos, ela tem muito da Alice e a gente já riu disso. Inclusive, tenho que registrar: que risada gostosa que ela tem! Maluquinha — e agora ela sabe que as melhores pessoas são assim.

Ela se identifica com a Alice por fugir do senso comum, porque não é uma história de princesa que fica esperando o príncipe no cavalo branco. É sobre uma menina tão linda quanto curiosa, que quer se aventurar no desconhecido, se divertir com o Chapeleiro e fumar a narguilé do Absolen.

Eu já falei que ela é toda perdida na vida, mas a própria Alice só conheceu o país das maravilhas porque também era assim, e foi no meio dessa perdição que eu me achei na bagunça dela, mesmo ela tendo me avisado 27 vezes que era problema e eu não arredando o pé, porque daqui eu não quero sair.

Ela tem mistério no olhar, doçura no falar e um abraço irresistível que não dá vontade de largar. O amor é tão contraditório que a cura para a claustrofobia é um abraço bem apertado. Vou te provar o quanto ela é incrível: pesquisa aí no youtube 'Your body is a wonderland', do John Mayer e você vai me entender. O corpo dela é o país das maravilhas e eu me perco nele facinho, facinho.

O texto ficou pronto, mas só mostrei agora, porque não queria que ela acordasse. Ela estava linda dormindo daquela forma tão gostosa... Ela abriu um olho, se esticou feito gata, mas continuou enrolada na coberta, porque o dia está preguiçoso igual a ela.

Agora sai dessa cama, menina. Ainda tem um milhão de maravilhas espalhadas por aí, mas só fazem sentido se você estiver aqui. Se John Mayer canta que o seu corpo é o país das maravilhas, eu digo que a tua alma tem a magia da Disney inteira!

Eu vou ficar aqui mais um pouco, encantado com essa vibe tão boa e verdadeira.



DIEGO HENRIQUE.
Prazer, Diego Henrique, 24 anos, Paulista e solteiro. Um aquariano na casa dos vinte, que brinca com as palavras e coloca os sentimentos na ponta dos dedos.

SEM PACIÊNCIA PARA AMORES VAGOS

gabrielle-roveda

Chega um momento na vida que a gente cansa de conhecer pessoas, cansa de criar expectativas e se frustrar depois. Vai perdendo a graça, dá preguiça descobrir alguém desde o início e começamos a querer algo sério. A maturidade bate à porta e deixa de lado a euforia adolescente que te faz se apaixonar perdidamente por quem não te deu nem, sequer, um sorriso sincero. A gente vai aprendendo a conviver, a reparar em toques, a identificar olhares e percebendo que não é todo mundo que merece nosso coraçãozinho de mão beijada.

Ando sem paciência para amores vagos, para aquele pessoalzinho que não vai até o fim do túnel e quer ver a luz no meio do caminho. Sem vontade de querer me doar a alguém que não se mostra transparente, que não demonstra o que sente e quer apenas trocar carinhos sem trocar sentimentos. Cansei de amores meia boca, de satisfazer a vontade do outro só para depois mendigar um amor falsificado em troca. Amores assim não me satisfazem mais, amores mortos emocionalmente não me matam mais por dentro.

Depois dos vinte a gente até tenta, mas não consegue entregar o coração. É tanta decepção acumulada que gera um receio danado, os caquinhos já foram colados tantas vezes que o coitadinho já nem vem embalado com uma faixa de "cuidado frágil" e sim com um aviso de "remonte se puder". E é disso que eu falo quando digo que cansei de amores vagos, de amores que esperam tudo pronto. Ando com vontade de gente que vem com o objetivo vir e não com só o de querer receber.

Meu coração já não é mais inteirinho, a vida já me fez em pedacinhos milhões de vezes e nunca mais eu vou estar inteira para alguém. Por isso quero amores que entendam, que saibam que esse ser humano é peça usada pela imaturidade do conhecimento que se adquire quebrando a cara mil vezes. Quero amores reais, amores que abracem a alma ao invés de apenas o corpo. Gente que não só cole a pele na nossa, mas que una o que tem de especial lá dentro.

É, cansei de amores que não se importam em ser presença, que não se importam em se importar. Não estou mais para trocas ilimitadas de carinhos, estou para conversas longas de olhares e sorrisos profundos. Não tenho mais paciência para dividir cobertores e travesseiros sem que me toque internamente antes. Cansei de amores que vêm pra dividir, quero amores que chegam para somar. Amores que me acrescentem algo, não simplesmente mais uma preocupação no dia-a-dia.

Quero amores que não precisem de esforço algum para me fazer feliz, que seja natural. Ando totalmente sem paciência para gente que precisa de esforço para ser quem não é, cansei de pessoas que ainda não se descobriram querendo descobrir o outro. Estou numa fase onde eu quero alguém inteiro, não alguém pela metade. Não quero que me complete, quero que me acrescente.

Cansei de amores vagos, cansei de gente incompleta.


GABRIELLE ROVEDA.
1997. Escritora de gaveta, bailarina por paixão, sonhadora sem os pés no chão e modelo só por diversão. Do tipo que vive mais de mil histórias pelas páginas dos livros, daquelas que quer viajar o mundo só com uma mochila nas costas, do tipo que acredita no amor a todo custo e dispensa de imediato pessoas sem riso fácil. Não sabe fazer nada direito, mas insiste em acreditar que o impossível é só uma daquelas palavras que vão cair em desuso e se vê tentada a tentar de tudo. Viciada em café e em escrever cafonices sobre si e o amor sem dizer nada ao certo.

FAZ TANTO TEMPO

mafe-probst

Acordei afoito e suado no meio da noite. Levei um tempo para me situar de onde eu estava, mas logo reconheci o vazio silencioso que entrava pelas frestas da cortina. A julgar pela escuridão, ainda era tarde. Ou quase cedo. Fiquei um tempo olhando para o teto que se escondia na minha parede azul. Eu sempre olho para o alto quando a insônia entra sem rodeios e suspiro um milhão e trinta e três vezes só para ver se o sono volta, mas é sempre em vão. Eu tateei o lençol ao meu lado e só encontrei vazio. Suspirei outras mil vezes. Já faz muito tempo, desde que você foi embora e não há mais um fio de cabelo teu perdido nas esquinas desse apartamento pequeno. Eu continuo dormindo do lado esquerdo da cama, continuo deixando um travesseiro sozinho e continuo coando café para dois. Bebo sozinho. Durmo sozinho. Faz muito tempo, mas não passa. Eu invadi o espaço que era teu e cheirei a fronha gelada, inventando teu perfume — que perfume você usaria agora? — e o cheiro do sabão em pó queimou minhas narinas. Faz muito tempo que queima. Suspirei mais cem vezes e senti o sono voltar tímido, junto com a fraca luz do dia que amanhece. Você gostava dos tons do dia amanhecendo, lembro bem. E suspirei. Faz tempo. Fiquei deitado no travesseiro que era teu, lamentando o futuro que era meu, não nosso. Talvez tenha te perdido aí. Não sei, faz tanto tempo. O sono infiltrou-se, pesando minhas pálpebras cansadas. Eu invadi o teu espaço e peguei no sono ali. Não sei, talvez por isso tenha te perdido. Sei lá. Faz tanto tempo.

MAFÊ PROBST.
Santa Catarina. Escritora, blogueira e engenheira. Praticamente uma hipérbole ambulante. Autora de Saudade em Preto e Branco. Tem dezenas de projetos em andamento e sonha abraçar o mundo. Colecionadora de sorrisos, dentes-de-leão e clichês.

SE EU PODEI O SEU AMOR, VOCÊ FOI QUEM ME DEU A TESOURA

re-vieira

Dias, meses, anos, a saudade as vezes ameniza, em outro momento ela vêm sem sobreaviso e soca o meu estomago, me causa náusea, dor na alma e também faz brotar em meus olhos castanhos lágrimas que queimam ao roçar a minha pele morena.

Basta! Cansei das suas dúvidas nas horas que precisei de sua decisão, e de suas certezas que vêm em um combo de juras de amor nas horas erradas. Não quero mais cruzar a mesma rua que você faz morada, quero me perder em um destino incerto, conhecer novos olhares, me prender em outros desejos, e me deixar levar por novos beijos. Não quero mais esperar por alguém que não sabe nem ao menos se quer voltar ou o porquê quis realmente partir.

— Mas eu te quero, eu te amo, eu posso te merecer Ana Clara.

Isso você me disse tantas outras vezes, um dia logo após eu lhe ver em braços que não eram os meus, beijando outra boca sem nem ao menos se sentir culpado, foi o meu coração que ficou em meio a ruínas de um fim que estava tão escancarado em minha frente e eu sempre me neguei a enxergar.

Eu que sempre fui segura de minhas vontades, abri mão da minha vida, do meu sorriso e até do meu amor próprio tudo para satisfazer o seu ego, não venha me jurar amor se você nem ao menos sabe o que significa essa palavra fora do dicionário, o estrago já está feito e tudo que espero é que ao bater à porta logo após você sair que não venhas mais impor a sua presença em minha vida, fechei para visitação, esteja ciente disso.

Mas caso insistir na teimosia de sempre e resolva aparecer esteja preparado para ver a cena aí do banco de reservas, e será a minha vez de estar desfrutando de um prazer momentâneo, de um lance causal ou de uma linda história de amor, essas que sempre fujo por não ter na pessoa os resquícios que ainda espero de você, mas agora é minha vez, sairei sem nem ao menos olhar para trás, deixarei no chão o casulo que me aprisionava à esta história que já conhecemos o final, lhe deixo uma casa vazia sim, porque todos os sentimentos dos mais nobres até os mais ousados, levarei comigo, para entregar a uma nova pessoa seja ela quem for.

Não foi fácil optar por uma nova rotina sendo que a antiga ainda era tão convidativa, mas ter que conviver com o seu desdém e pouco caso estraçalhou a minha dignidade em incontáveis partes que até hoje tento reparar o estrago, então me desculpe se não possuo mais saco para ouvir as suas lamentações ou de estar sempre com tempo para lhe responder, há, aliás, já que estamos falando sobre isso, não se assuste se a partir de agora tiver que lidar também com o meu sumiço, afinal, para que continuar presa ao cordão umbilical sendo que já sei caminhar sozinha?

The End. Game Over, Sayonara. Me ensinaram lá na escola que “agente” junto é contra qualquer regra de ortografia, tanto que passei a aplicar isso em minha vida, você é aquele velho cigarro que me dá a sensação de liberdade a cada nova tragada, mas ao mesmo tempo aniquila meus pulmões e não, não é nada saudável, decidi quebrar os grilhões que me aprisionam a ti, mas de uma coisa você não pode me culpar, estamos à beira do precipício, e a escolha é continuar ao seu lado ou a pular, eu escolhi voar mesmo sem ter asas, mas quem me fez chegar a essa conclusão foi unicamente você, no momento que decidiu que meu amor não era suficiente para lhe satisfazer, hoje ao vir aqui, jurar que ainda me ama, confesso que me perdi por um momento, mas logo em seguida já cai em mim, e se um dia decidi voar, foi porque ao seu lado eu já não encontrava mais a segurança de um lar.


RÊ VIEIRA
Sul-mato-grossense, escorpiana, bacharel em Direito, mas viciada nas palavras, brinca de ser poeta e é rockeira de coração. Ela é uma mistura de intensidade com a voracidade de viver, é apaixonada por livros, pessoas legais, música e é louca por vinhos.

FEITO TATUAGEM

magda-albuquerque

Te encontrei e, tão logo se deu o encontro, teu cheiro, tua pele e teu toque ficaram marcados em mim feito tatuagem, de um jeito intenso, como se sempre estivesse ali e como se já fizesse parte de mim. Não é pretensão alguma, mas ouso dizer que, desde o primeiro instante, não permitistes que nenhuma outra imagem se tornasse evidente, a não ser o que tu trazias à minha vida.

Fui me acostumando com essa novidade que logo se acomodou, colou em mim, em minha alma, minha pele. Já não havia um eu distante desse tu que chegou fazendo morada, revirando tudo, cravando teu lugar, sem demoras. Não entendo muito bem em que momento tudo se tornou tão efetivo assim, tão bem definido e claro, mas foi natural, como se, ao nascer, tudo já fosse assim. De alguma forma renasci, renascemos e renovamos a alma travestida de dores para uma nova — de cores, símbolos e sonhos novos e inteiramente verdadeiros, perdurando por um tempo infinito.

Eu que estava acostumada a ser só. Pele limpa apesar do desgaste do tempo e histórias passadas, deixei que fosse tu a deixar marcas em mim. Senti que era a pessoa e o momento certo, que passei um bom tempo da vida a pensar se um dia conseguiria tatuar, deixar ficar pra sempre. É que eu temia me arrepender e não poder mais me desfazer das marcas que ficassem. Mas ao chegar, tu fizestes tudo tão distintamente, que eu nem percebi e já estavas completamente em mim, em meu corpo, em minha vida.

Hoje olho para a minha história, que está na pele, e te vejo em cada curva, em cada cor, em cada suave marca registrada pelo amor que existe em nós. Te vejo tatuado no peito, na alma, no pensamento. Te vejo em cada passo, cada gesto, cada plano e sonho. Te vejo em tudo, e não esperava que fosse assim, nem nos maiores sonhos e planos que já ousei fazer um dia, e olhe que de sonhos eu entendo bem, pois eram eles que alimentavam o silêncio da solidão que vivi por tanto tempo.

Abri o coração disposta a deixar a vida acontecer, e me trazer o que fosse predestinado a mim, ou que eu atraísse, ou que outra lógica pudesse justificar como se dão todos os acontecimentos da vida. Ao deixar leve, o coração tão logo se deixou encantar-se pela calmaria do teu, que de um jeito tão leve, transpira intensidade. Aprendi nesse encontro que não tem nada maior que a entrega e tudo o que nossa vida deixa acontecer, ao permitir, com leveza, que se aproxime o que fizer sentido à vida e a todos os outros sentidos que estão em nós.

E como não tem outro jeito, te deixo ser em mim uma marca de infinitude, porque ao me permitir te deixar chegar, abri um novo espaço para o amor que era tão esperado, mas não sabia sobre nada dessa intensidade que faz o coração acelerar e ficar miúdo para o tanto que há entre nós. Não há como ser diferente, és agora tatuagem, em mim, em minha vida, e não há de apagar. Amor inteiro assim não se desfaz, não perde cores, nem se deixa esconder com o passar dos anos, é sempre novo, sempre colorido, vivo e visível.


MAGDA ALBUQUERQUE.
Magda Albuquerque. 26 anos. Prolixa. Psicóloga. Mistura realidade e fantasia em um encontro com a sua criatividade. Sempre em busca de tornar os dias mais leves com uma palavra ou outra, tentando organizar o próprio mundo. Escreve para organizar o próprio mundo, com a missão de colorir a vida - a sua e de todos.

ELA É DELA, MOÇO


Disseram a ela que homem nenhum ficaria ao seu lado caso ela não mudasse seu comportamento. Ela sorriu e disse: sou minha, baby. E não deixou de ser que era para caber na vida de ninguém. Ela sempre soube quem queria ao seu lado e como desejava viver. Jamais deixaria que alguém coordenasse seus passos ou lhe dirigisse seus caminhos. Ela sempre teve em mente que a vida é muito maior do que o seu status de relacionamento, do que sua condição civil. Ser metade de alguém nunca fora prioridade. Ela sempre acreditou que era inteira demais para buscar uma banda de laranja.

Disseram a ela que ela deveria se comportar como uma moça de família, pois homens não gostavam de mulheres baladeiras e que curtiam noitadas. A moça sempre teve em mente que ela poderia ser quem quisesse. Mas não admitiria, em hipótese alguma, ser Amélia de ninguém. Amélia era mulher de verdade pro homem que desejava que ela fosse invisível aos olhos dos outros, que estivesse em casa preparando comida e cuidando dos filhos, que abaixasse a cabeça para as suas represálias. Ela não poderia ser Amélia. Nem que ela quisesse.

Disseram que ela deveria ser mais comedida, menos espalhafatosa, que falasse apenas o necessário e deixasse que o homem a conduzisse em todos os momentos. Ela olhou para si, para a sua história, se viu batalhando nos momentos difíceis, sem que alguém lhe estendesse a mão e não pôde ser ingrata com seu passado, com os dias sem vitória, os dias em que teve ao seu lado única e exclusivamente sua companhia. A moça não soube conciliar sua independência com a boa vontade alheia.

Disseram que ela deveria mudar seu jeito para caber na vida de alguém, que suas roupas não condiziam com a vida de quem ela queria, que ser independente demais a prejudicaria e que ela deveria baixar a guarda vez ou outra. A moça olhou para sua vida mais uma vez, para a sua história, e convidou o moço para entrar. Fez café, estendeu rede na varanda e deu a chave da casa. A única exigência que ela fez foi que ele não lhe cortasse as asas, pois ela sempre compreendeu que todas as exigências para caber na vida de alguém nada mais era que uma gaiola.


PÂMELA MARQUES.
Pâmela Marques é escritora, musicista e apaixonada. Tem alguns títulos acadêmicos, mas o que realmente importa é que ela vive para arte. É fã alucinada de Roxette, amante de Caio Fernando Abreu e admiradora de Tolkien.

DEIXA-ME BAGUNÇAR VOCÊ

andressa-leal
Leia ao som de Liniker - Zero 

Quero te tirar dos eixos e bagunçar seu cabelo, aquele que me dá raiva de tão certinho e que não tem um fio fora do lugar. Preciso saber se você é capaz de se entregar assim ,sem medo. Será que você consegue, alguma vez, fazer as coisas sem se preocupar com as horas?

Deixe-me bagunçar você, tirar a sua vida um pouco dos trilhos, sair sem ter hora para voltar e, algumas vezes, silenciar o celular. Sua vida não precisa ser tão cronometrada assim, experimente viver um final de semana sem ter hora para tudo, tente aproveitar a sua folga ao máximo. Você precisa viver novas experiências, novos gostos e situações diferentes. Pode falar palavrão de vez em quando, um 'puta merda' é libertador e os outros palavrões então prefiro nem comentar.

Preciso bagunçar você, a sua vida, sua casa e o seu modo de ver as coisas. Há quem diga que o amor é libertador e é exatamente isso que eu desejo a você, que o meu amor te liberte de alguns rótulos, que a minha bagunça seja aceita nessa sua gaveta separada por cores, nesse seu cabelo sem nenhum fio fora do lugar e nessa sua mania de separar os DVDs por ordem alfabética.

Bagunçarei sua vida e a sua gaveta se você deixar, serei tão libertadora para sua vida, como um palavrão solto no meio de uma discussão, te ensinarei que nem sempre a meia precisa combinar com a gravata (e aqui para gente, isso é brega às vezes). Terei o meu espaço no seu armário, mas, acredite, eu ainda vou roubar um pedaço do seu.

Não enlouqueça se me ver andar pela casa com a sua camiseta, talvez tenha sido a primeira roupa que encontrei ao levantar. Suas coisas são tão organizadinhas e com certeza foi mais fácil achar uma roupa no seu lado, do que no meu.

Permita-me ser eu, louca, bagunceira e que, por algumas vezes, solta um palavrão, eu juro que permitirei que você seja chato e entenderei quando você não quiser que eu bagunce seu cabelo. Mas de vez em quando, permita-me bagunçar a sua vida, te descabelar e te tirar dos eixos.

Deixa-me bagunçar você por amor e nada além disso!

ANDRESSA LEAL.
Andressa, desde 1986. Mauá - SP, uma mulher cheia de mistérios e repleta de poesias, encontrei nos textos e poesias minha fuga, meu refugio, meu mundo, algo só meu que compartilho com você. Aqui serei simplesmente eu, textos que nem na pagina do facebook eu posto aqui irei postar. Um dia sem poesia para mim é um dia em vão!

AO SOM DA SAUDADE


Ontem acordei mais cedo que o costume e quis logo te fazer um carinho e dar aquele longo beijo, mas lembrei que você não estava. Só vi o travesseiro que usei durante a noite para sentir o teu cheiro.
Levantei ainda meio tonta, com aquela preguiça boa que é só minha, o cabelo bagunçado, a voz embargada. Entrei no banheiro e fiquei brincando com o creme dental, que tortura – confesso que te quis ali do meu lado ocupando todo o espaço. Criei coragem, tomei um banho frio – aprendi com você, lembra?

Não tive a sua toalha pra me secar. Usei a minha, que não fazia o mesmo efeito. Vesti aquela calcinha preta que você tanto gosta e fiz o mesmo caminho que você faz pelo meu corpo, senti ondas de calor me aquecendo, era a lembrança viva e quente dos nossos beijos. Pensei em tomar outro banho pra dissipar o calor, mas, pensando bem, eu estava gostando de sentir aquela energia. Um ventinho quente rodando perto do meu pescoço... Se era alucinação eu não sei, mas juro que senti seus dedos passeando na minha bunda. Arrepios fortes tomaram conta de mim, tive certeza que, naquele momento, você também me desejava.

Coloquei um vestido, tomei um gole de café dormido para combinar com todas as lembranças. Acho que são incontáveis as vezes que dei repeat na música Divina Comédia Humana de Belchior, e sempre lembrando de “quando você entrou em mim como um sol num quintal”. Olhava o celular à espera das suas mensagens carregadas de amor, desejo e paixão, e recebê-las me fez ganhar o dia. Foi delicioso ficar horas e horas rindo de fotos antigas, falando das vontades ardentes e das coisas do coração.

Estou aqui contando os dias pra te ter de volta com mais intensidade, com meu amor mais forte a cada dia. Você é o meu raio de sol, a luz para o meu coração. Sou toda moradia para os teus sentimentos. Vem e divide comigo o teu café, o Nescau e o requeijão...

Traz o violão – o teu desejo. Estou aqui pronta para ouvir as mais belas canções e melodias que só você sabe tocar. Traz também o teu fogo, viva aceso em mim! Aproveita e junta a tua vida na minha.

Você é ponte, a ponte da minha alma.


KAL LIMA.
Poetisa, uma baiana com a alma no mundo e os pés em um rincão incrustado no Sertão. Sou uma garota-mulher apaixonada pelos encantos que o amor traz. Falo muito, sinto muito, nas palavras encontro o meu cais, é o meu jeito de transbordar.

ROSA

jaya-magalhaes-liricas

Entrou já atrasada, descalça, segurando os sapatos de saltos muito altos na mão esquerda. Na mão direita, equilibrava a bolsa e um cigarro que tentava manter-se aceso entre o polegar e o indicador, apesar da chuva. Caminhava nas pontas dos pés, com os cabelos encharcados e a face em aquarela chorosa, pela maquiagem que escorria. Não quis toalha para enxugar o excesso de água, estava com muito calor - repetiu duas vezes. Sentou-se.

— Me protegi na marquise do prédio da esquina por quase uma hora, até que me descontrolei. Sou eternamente água em minhas vezes de sereia. Caminhei pela rua deserta em passos muito lentos, me deixando molhar na espera de que tudo o que ainda fosse broto acordasse dentro de mim. Não sei. Hoje saí de casa querendo fazer parte um musical, nadar pelada num rio de águas muito transparentes, me sentir plena, louca, solta, mulher – despudoradamente mulher. É necessário ser aceita, por ser. Afinal, não somos, todos? Saí querendo poder andar de bicicleta com meu salto agulha, que é tão frágil, mas equilibra o meu mundo – e só os deuses sabem o peso que o mundo tem. Saí querendo alguém que me coma gostoso, com olhos, nariz, boca, pele, sexo – e poesia. É preciso que se coma com poesia. Tenho sentido tanto frio em dias com muito sol. Ando na expectativa de escrever um manual explicando que ninguém deve jamais ler a vida como um manual – não somos estáticos, nos fodemos e nos curamos dia e noite. Um coração partido se quebra para, na soma, multiplicar ainda mais de si. De tanto coração que tenho, já enlouqueci oitocentas e noventa e seis vezes nas últimas quatro horas. A loucura infinita se infiltrou em cada uma das minhas veias, escrevi um livro de ontem pra hoje, cento e dezenove páginas em nome da necessidade de me livrar de toda e qualquer história que ele ainda possa protagonizar na minha vida. Agora só tem espaço para mim – e para tudo o que há de chegar nas minhas eternas reticências. Posso acender mais um cigarro? Me desculpe.

Enquanto falava, balançava muito as pernas. Soltava a fumaça entre os lábios bonitos que tinham um estranho formato de coração e parecia haver ali – atrás de toda a fumaça - um véu, através do qual eu peneirava seu desespero. Aquele delicioso desespero de quem vai. Ela estava indo.

— Acendo todos esses cigarros porque geralmente não sei o que fazer com as mãos, existe um vão muito grande e fico na ânsia de agarrar alguma coisa. Qualquer coisa. É tão importante que se tenha algo nas mãos! E o meu querer... O meu querer é imenso, intenso, denso. Sentir continua a ser a única maneira que conheço de estar viva. Descobri ainda que, sentindo, não preciso fazer sentido algum. E não faço. Tenho visto todos aqueles filmes franceses, ensaiado uns puta delírios completamente europeus, entrado em transe a cada vez que uma coisa muito linda se aproxima. É incontestável a imensa beleza que tudo carrega. A minha ansiedade é desesperadora. Me livrei de promessas. As coisas acontecem quando me deixo engravidar por elas, preferivelmente ao engolir distraídos copos de cerveja e sentir a vida muito dócil, maleável. Minha gestação dura uma vida inteira. Carrego amor, o parto é eterno. Entre transtornos e felicidades: sobrevivo. Minha cama continua grande demais, meu coração cansado demais, minha vida um teatro com atores ruins demais. Um problema muito comum, uma vez que ninguém ensaia para cair no mundo. A gente sai da nossa redoma aos prantos. Nascer dói. Renascer, no entanto, é doce. Estou renascendo. Isso é bom pra caralho.

Levantou-se e saiu, assim: despetalada, voando em plena tempestade, semente de si mesma, aguardando a próxima primavera.

JAYA MAGALHÃES
Escreve. Da Bahia: às vezes serra, às vezes mar – sempre azul. Pela poesia. Porque não sei desenhar. Porque viro aquarela. Para que os meus possam me amar mais. Para ver nas palavras espelhos de mim. Para ser nas palavras o oposto de mim. Para ser. Escrevo, porque sou. Escrevendo sou possível. Aconteço.